POLÍTICA E RELIGIÃO: AS DUAS FACES DA MESMA MOEDA - Politics and Religion: Two Sides of the Same Coin

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Política e Religião - as duas faces da mesma moeda

Este artigo explora a complexa relação entre Estado e Religião, analisando-as como as duas faces da mesma moeda. Apresenta quatro modelos de governança - Confessional, Teocrático, Ateu e Laico - e, sob uma perspectiva cristã, examina como cada modelo aborda a liberdade religiosa, a tolerância e a separação entre Estado e Religião. Oferece uma reflexão profunda sobre a intersecção entre fé, ideologia e governança.

Palavras-Chave: Estado, Fé, Ideologia, Roma, Confessional, Teocracia, Ateísmo, Laicismo, Caminho, Humanidade.

Introdução

Alice no país das maravilhas, logo ao chegar, se deparou com vários caminhos. Aí ela viu um animal, personagem da história, e perguntou: “Aonde levam esses caminhos?” “O animal perguntou:” Pra onde você quer ir? Ela disse: “Não sei pra onde quero ir, estou perdida”. Então respondeu: Se você está perdida, então qualquer caminho serve (Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll).

Eis aí a toda problemática ao redor das pessoas, isto é, o mundo está repleto de caminhos ideológicos.

Quando não se sabe o caminho, começa-se inventar outro lado da bola, porém ressaltando que a bola somente tem dois lados; o lado de dentro e o lado de fora. Comparando o mundo como uma bola, porque de fato é uma esfera ecológica, que fique claro que não há uma terceira opção para humanidade como forma de caminho; como assim será apresentado, em tese, no decorrer desse trabalho.

Porém pra início de trabalho, o mundo será, por hora, comparado a uma moeda. Que como moeda possui duas faces válidas, religião e política, e uma terceira opção de borda semelhante à expressão comum em nossos dias de “encima do muro”. O que é bem sugestivo, como acontece com pessoas que se encontram como Alice, logo que chegou ao mundo das maravilhas. E assim fica o questionamento, que pra quem está perdido, qualquer caminho serve.

Há diversos caminhos ideológicos propostos para solução da humanidade no campo das ciências sócias; um lado da moeda. O mesmo ocorre no campo das religiões; outro lado da moeda.

Como exemplo, de um dos lados da moeda, o cristianismo é uma linha de filosofia também apresentado como um caminho pra humanidade que se subdivide em varias linhas de pensamentos teológicos, como Católicos, protestantes, pentecostais e etc.

Em meio a diversas ideologias políticas e religiosas, qual o caminho que se deve seguir? Ou então, a melhor pergunta seria: Qual o caminho que a humanidade está seguindo?

Essa reflexão deve ser levada em consideração, porque um indivíduo compõe a sociedade. Ora compõe um lado da moeda e ora compõe o outro lado da moeda que é o globo terrestre.

As ideologias, embora muitas lindas e maravilhosas aos olhos humanos, às vezes se revelam em estupidez. As guerras políticas e religiosas, ambas ideológicas, são exemplos trágicos desse fenômeno social.

Pra se ter uma ideia, o cristianismo, ao longo da história, fez atrocidades em nome de Jesus. Isso porque têm as malditas e estúpidas ideologias cegando as pessoas, de tal sorte, que não se sabe o que é fé, acreditar, confiar e assim por diante. Repare a quantidade de caminhos ideológicos inseridos na fé em Jesus.

Na tentativa de achar uma solução para humanidade, existe uma tentativa de fusão dos lados da moeda; Partido Cristão. Em outras palavras, religião e política andando de mãos dadas. Que talvez não seja bem de mãos dadas, porque pra alguns eleitores essa união fere o conceito de Estado Laico, o que implica em perdas de votos nas urnas por parte de quem não aposta nessa ideologia, assim com os ateus.

O ateísmo, que aposta na política, compõe um lado da moeda com total discriminação do outro lado. Ateístas defendem que como não é possível entender nada em meio a tantos caminhos religiosos, pra não se ficar encima do muro, que é na borda da moeda, propõem como solução uma fé baseada em uma descrença; ateísmo, o que acaba sendo uma forma de crença também.

Mas Alice no “País das Maravilhas do autor Lewis Carroll”, está lá recém-chegada em meio a tantos caminhos. Como ela está perdida, qualquer caminho serve, no entanto precisa de um caminho pra seguir.

Há uma filosofia popular que diz que todos os caminhos levam a Roma, no sentido de dizer que todos os caminhos religiosos levam a Deus. Mais fácil acreditar que esses caminhos se referem mesmo as estradas construídas pela antiga Roma pra ter acesso mais fácil aos lugres conquistados. Se religião se define como algo que religa ou como caminho, mas se parece como uma estrada em meio a pântano que até pra pavimentação é muito difícil.

Jesus disse claramente que Seu governo não é desse mundo terrestre, esférico e ecológico, ou o nome que queira dar pra essa moeda. Se Ele é rei, presidente, Chanceler ou Primeiro Ministro, não vem ao caso, porque não irá voltar pra governar, e sim, pra salvar os seus em meio a tantas ideologias propostas para salvação da humanidade.

Ele não está de um lado da moeda e nem do outro. Ele disse de forma bem definida: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Repare o artigo definido “O”. Portanto O único caminho. A saber, muito bem definido (João 14:6).

Como a problemática das pessoas é achar um caminho, desconsiderando que Jesus é o único caminho pra humanidade, então surgem às propostas de Estados Confessional, Teocrático, Ateu e Laico:

- Estado Confessional: assume uma religião oficial, mas não obriga os cidadãos a segui-la, permitindo a existência de outras religiões e promovendo a tolerância religiosa.

- Estado Teocrático: assume uma religião oficial e exige que os cidadãos a sigam, proibindo a existência de outras religiões e não tolerando qualquer credo diferente.

- Estado Ateu: não assume nenhuma religião, não tolera nenhum credo e persegue e proíbe qualquer atividade religiosa.

- Estado Laico: não assume nenhuma religião, promove a tolerância religiosa e a separação entre Estado e Religião, representando talvez a melhor forma de equilibrar as duas faces da mesma moeda.

"Dessa interação entre política e religião, como duas faces da mesma moeda, desenvolve-se este artigo."

  • 1. Estado confessional
  • 2. Estado teocrático
  • 3. Estado ateu
  • 4. Estado laico
  • 5. Conclusão

1. ESTADO CONFESSIONAL

Confessional, por etimologia, vem do latim confessio (onis "confissão" + al). Equivale dizer que se assemelha a uma confissão; o que dá entender que é um Estado que, por força de sua constituição, confessa e assume uma religião como oficial do Estado.

Roma antiga em sua política, ao dominar um povo conquistado; fazia escravos, romanizava alguns merecedores da cidadania romana e absorvia a religião incorporando ao Estado. Isso era perfeito como política de Estado, porque o conquistado podendo manifestar sua fé em sua religião, disfarçava a Roma como algo um tanto bom, embora conquistadora. Isso faz parecer que ser conquistado não é o mal maior do que não poder ter a liberdade religiosa.

Assim Roma, que já tinha tantos deuses e mitologias herdadas dos gregos, cada vez mais ficava cheia de religiões. Poderia ser definida, nessa época, como um Estado Politeísta.

Poucos anos, após a ascensão de Jesus ao céu, começou a expansão do cristianismo. As sociedades judaicas, que antes estavam incomodadas com Jesus, agora com o crescimento do cristianismo ficaram muito mais incomodadas. Porque ouvir Jesus se declarar Deus era um problema, mas ter que aceitar as pessoas acreditando nisso, era um problema muito maior. A morte de Jesus não resolveu o caso de tais sociedades em julgar como blasfêmia esse Alguém que se dizia Deus.

O Estado de Israel, como Teocracia, de Deus único, fé monoteísta, não poderia jamais aceitar outro deus ou um messias como Deus criador dos céus e da terra vivendo como um simples carpinteiro entre as pessoas. Com o crescimento do cristianismo, em território Israelita em meio às sociedades judaicas, Iniciou-se a partir daí uma perseguição aos cristãos.

Em atos dos apóstolos se observa que a comunidade cristã de Antioquia, em território romano, começou como os cristãos expulsos de Jerusalém. Um bom lugar para se refugiar, pois os romanos não tinham nada contra a religião de ninguém. Jesus como alguém que se declarava Deus não era problema, porque os imperadores, homens, também se declaravam deuses. Era da cultura dos romanos a aceitação das religiões.

Em Antioquia acoplaram cristãos vindos de Chipre e da Cirenaica. Foi ali que os seguidores de Jesus, possivelmente pela primeira vez, passaram a ser chamados de cristãos. De lá Paulo iniciou as suas três viagens missionárias que foram temas principais dos Atos dos Apóstolos (Atos 11:19-26).

Já que os romanos não tinham problemas com religião de ninguém e os judeus rejeitaram Jesus, então a princípio, o território romano era um campo promissor para a expansão da fé em Cristo Jesus como O único caminho para a salvação da humanidade. Em meio a isso tudo cresceu o cristianismo mesclado com cultura romana, que hoje chamamos de cultura religiosa judaico-cristã. Isso seria algo de 50% judaica e 50 % romana. Ou algo de sei lá de quantos percentuais pra uma e pra outra.

O cristianismo foi crescendo com o passar dos anos. Roma tinha muitas religiões com diversos deuses, o que era obviamente muito ruim para os moldes cristão. Porque a religião cristã, em sua essência, é estritamente monoteísta. O que significa dizer que Jesus é Deus para os cristãos confessos na trindade, isto é, Deus pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo.

Sendo monoteísta, evidentemente não tinha tolerância com as demais religiões e deuses. O que é aparentemente, para os filósofos políticos, o mesmo problema da intolerância religiosa da teocracia do Estado dos judeus. Contudo, aqui vale ressaltar o equívoco dessa teocracia em relação a Jesus.

A cultura judaica por ser consolidado nas Escrituras Sagradas, o que chamamos de Bíblia, diz que Jesus como messias seria, na terra, o próprio Deus manifestado em ser humano. Essa era a verdade que o evangelho do novo testamento do discípulo João tanto destacou. Daí se diz: “Conheceres a verdade e a verdade te libertará” (João 8:32). “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6). Jesus era essa VERDADE ao mundo, e não a verdade em forma de adjetivo que se tanto fala nos tribunais. Então, o equívoco está aí, ou seja, a teocracia judaica era a mesma de Cristo Jesus.

A rejeição a Jesus se deu porque os judeus esperavam um messias salvador do Estado deles. Não queriam ficar subjugados ao Estado de Roma. Queriam um messias salvador nos moldes de Cesar. Queriam um salvador de militância politica. Não queriam um salvador que pudesse perdoar libertando as pessoas do pecado. A posição dos judeus era um lado da moeda, enquanto a dos cristãos era o outro lado. Por esse ponto de vista, foi um equívoco político a rejeição a Jesus.

Judeus admiravam o imperador romano. No momento em que Pilatos, governador romano, discutia a crucificação de Jesus, a autoridade judaica respondeu que eles, judeus, não tinham outro rei senão César (João 19:15).

Mas à medida que o cristianismo crescia de um lado da moeda, em território romano, ia crescendo o conflito com as outras religiões. Passaram existir as perseguições religiosas terríveis contra os cristãos. Como exemplos: do imperador Nero, do imperador Domiciano, e etc.

Chegando o ano 313, o imperador de Roma Constantino, se converteu ao cristianismo e transformou a religião cristã como a religião oficial do Estado Romano, como documentado em a “Vida de Constantino de Eusébio de Cesaréia". Assim Roma confessa e assume uma religião, dita cristã, como oficial do Estado. Portanto, Roma que antes era politeísta, a partir daí, passou ser um Estado Confessional.

Cristãos que antes eram perseguidos, agora se tonaram perseguidores implacáveis as outras religiões. Pois não tinha tolerância religiosa, porque o Estado os assegurava o direito de religião única.

Embora que Estado Confessional não pode ser confundido com Estado Teocrático, na prática ambos se confundem por uma razão muito simples, que é a ideologia religiosa por detrás da constituição. Muito difícil dizer pra um cristão que não se deve ter intolerância religiosa, uma vez que, ele acredita ideologicamente que faz parte da única religião de Deus. Cristão com esse pensamento, possivelmente, acredita que tem um passaporte garantido pra entrar no céu. Porque sua ideologia vai além da fé em Cristo Jesus.

Hoje como exemplos de Estados Confessionais: a Inglaterra de cristianismo anglicano, Grécia de cristianismo ortodoxo, e etc.

O cristianismo cresce, corpo a corpo, proselitando sua fé. Foi assim desde o início, é assim atualmente e sempre será assim. Daí vão surgindo os conflitos, sendo que o Estado tenta resolver toda essa problemática com criações de leis.

Note que cristianismo anglicano e cristianismo ortodoxo se conflitam e são exemplos de dois caminhos para se chegar a Deus. Você pode pensar que agora não somente Alice está perdida, mas a humanidade também está. Para responder essa sua pergunta, leia abaixo: “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também. Mesmo vós sabeis para onde vou, e conheceis o caminho.

Disse-lhe Tomé: Senhor, nós não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho?

Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim. Se vós me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai; e já desde agora o conheceis, e o tendes visto.

Disse-lhe Filipe: Senhor mostra-nos o Pai, o que nos basta.

Disse-lhe Jesus: Mas Felipe, estou há tanto tempo convosco, e ainda não me tendes conhecido? ”(João 14:1-9) Bem, a questão é que tanto a Alice como a humanidade, ambos apostam no caminho que o Estado possa oferecer.

Religiosos acreditam, por força de ideologia de fé, que Deus pode prover todas as coisas, se em primeiro lugar buscar o reino Dele, sendo que as demais coisas serão acrescentadas (Mateus 6:33). Por esse ponto de vista, um Estado Teocrático radical talvez seja melhor que um Estado Confessional.


2. ESTADO TEOCRÁTICO

Teocracia, por etimologia, é uma junção de duas palavras de origem grega (theós = deus e cracia = governo). É um regime de governo onde deus e religião, unidos, ocupam um lugar central na sociedade e no governo, o que talvez seja o mais semelhante aos dois lados da mesma moeda.

Em Estados teocráticos, as decisões políticas e jurídicas passam pelas regras da religião oficial. Sendo assim, a religião exerce o poder político de forma direta. Os membros do próprio clero têm cargos públicos. Quando as decisões dos governantes e juízes, mesmo não tão religiosos, são controladas pelo clero.

A diferença, entre Estado Confessional e Teocrático, está no fato do confessional não obrigar os seus cidadãos serem adeptos da fé do Estado. Já o teocrático, em âmbito mais radical, exerce uma obrigatoriedade, de forma tal, que é melhor que os cidadãos sejam adeptos a fé do Estado para não terem problemas.

Jesus Cristo não obrigou ninguém à conversão conforme fizeram os adeptos do cristianismo. Então a antiga Roma Cristã seria mais bem definida de Estado Teocrático ao invés de Confessional, porque o cristianismo cresceu obrigando as pessoas a se converterem. Lembrando aqui, que os cristãos também foram perseguidores e que infelizmente ainda são intolerantes.

Religião, além de cultural, é também uma ideologia de fé. Existem as religiões basicamente culturais, como exemplo, o candomblé. Mas algumas são mais ideológicas que culturais. Sem sombra de dúvidas que as ideológicas são as mais problemáticas. Cristianismo e Islamismo são exemplos de diferenças de culturas, rivalidades e ideologias de Estado.

Como já dito, a ideologia religiosa está por detrás da constituição. Com isso, na prática, a confessional e teocrática se confundem, de sorte, que não se sabe onde está a diferença. Porque ambas são compulsoriamente prosélitas.

Exemplos de Estados Teocráticos: Irã com o islamismo, Vaticano com o cristianismo romano tendo o papa como chefe de Estado. Aqui vale reconhecer que a igreja, católica romana da atualidade, não é problemática com sua fé como supostamente foi na idade média. O Brasil Império era um Estado Confessional Parlamentar. Embora a fé cristã, seja muito ideológica, a família real tinha notável tolerância com outros credos. As igrejas protestantes tradicionais vieram pro Brasil nessa época.

Contudo, para algumas igrejas protestantes, a igreja católica ainda representa um perigo iminente. Há os que acreditam que o Papa é a besta do apocalipse. Esse efeito é pela antiga rivalidade de católicos e protestantes do final e início, da Idade medieval e moderna respectivamente.

Religião pode ser compreendida como uma prática de repetição de forma metódica. Em outras palavras, um católico, por exemplo, se torna um bom católico porque ao longo da vida ele repete os ritos, participa dos ritos e ora com frequência numa média de cinco vezes por dia. Ora quando acorda, ora quando almoça, ora na hora da Ave Maria, ora na janta e ora na hora de dormir. Como um atleta que exercita muito os músculos, assim é o religioso que exercita sua fé.

Essa repetição de forma metódica, se não provocar cansaço enfadonho, faz qualquer religioso de qualquer religião ser um bom religioso em seu credo. Filósofo cientista compreende que prática religiosa mais se revela como algo tipo um ópio. Pois parece que deixa o indivíduo com a mente entorpecida como efeito da droga. Que, portanto isso não é bom para o Estado, pois cidadãos acabam se guerreando, se destruindo, e se matando em meio às loucuras religiosas.

Então a proposta dos filósofos cientistas passou a ser um Estado sem religião, o que poderia ser o melhor caminho para a humanidade. Há uma frase que caí bem aqui: "A religião é o ópio do povo". Essa frase é uma Introdução à “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel do autor Karl MARX”.

Se a humanidade, ainda está como Alice, recém-chegada no país das maravilhas, melhor que não peça ajuda aos filósofos cientistas que propuseram um Estado Ateu.


3. ESTADO ATEU

Ateu, por etimologia, tem origem no grego “theos” = deus e da partícula “a” = negação. Essa partícula dá uma real conotação de sentido de negar. Porque o ato de negar é afirmar corajosamente que não existe, não é verdade, é contestar, é contradizer, é renegar, é desmentir, e acima de tudo refutar.

Um ateu não é simplesmente alguém que não tem deus; é refutar a existência de deus. E parece que ateu se empolga mais em negar um Deus que possui a letra “D” maiúscula. Portanto um Estado Ateu não é simplesmente não assumir alguma religião. Não admite práticas religiosas e consequentemente persegue seus cidadãos religiosos.

Sendo assim, Estado ateu é caracterizado pela proibição e perseguição às práticas religiosas. Não apenas se separa da religião, mas a combate. Seria um lado da moeda combatendo o outro aparentemente mais fraco. Aparentemente porque religião tem forças por fé, ideologia e cultura.

Exemplos podem ser encontrados em experiências socialistas ou comunistas do século XX como a antiga União Soviética (URSS), Cuba, China, Coreia do Norte, Camboja, entre outros.

Em dias atuais, Estados Ateus, praticamente não existem declarados por força de suas constituições. Isso se deu porque, a aparente fraqueza das religiões, se revelou mais forte do que o Estado.

Jesus em sua abertura do sermão da montanha, disse: “Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós” (Mateus 5:11,12).

A religião para um indivíduo determina sua moralidade, visão de mundo, autoimagem diante da sociedade, e atitudes em relação aos outros. E as diferenças religiosas são por fatores culturais e pessoais como essas. Daí, como dito, religião tem forças por fé, ideologia e cultura. Sendo que tudo isso pode levar a uma paixão desenfreada, romântica e de extremo zelo que se traduz por fanatismo.

O Estado Ateu tem essa mesma paixão desenfreada em oferecer um caminho pra humanidade, de sorte, que fanatismo não é exclusividade de religião, ou seja, o Estado Ateu também persegue seus cidadãos. Pode-se dizer que a perseguição religiosa pode ser desencadeada por fanatismo religioso ou pode ser desencadeada pelo Estado quando vê um determinado grupo religioso como uma ameaça aos seus interesses ou segurança. Assim em muitos países, a perseguição religiosa resultou em tanta violência que é considerada um problema de direitos humanos.

O ateísmo de Estado foi definido por um governo caracteristicamente pela anulação da liberdade e prática religiosa. Foi praticado pela primeira vez por um breve período na França revolucionária. Mais tarde foi praticado no México revolucionário e pelos Estados comunistas.

A antiga URSS tinha uma longa história de ateísmo de Estado em que o sucesso social dependia que os cidadãos declarassem o ateísmo e que deveriam ficar longe das igrejas e até mesmo as vandalizar. Esta atitude, sobretudo militante, durante a era stalinista intermediária, foi no período entre guerras de 1929 a 1939.

Isso tudo porque o Estado Teocrático busca uma razão e arbitrariamente impõe leis radicais. Acredita religiosamente que religião não é racional. E a religião, por sua vez, acredita religiosamente que o Estado que não é racional. É um trocadilho e uma disputa de quem tem a razão.

A “História do Ateísmo de Georges Minois” abrange desde os povos primitivos até a cultura ocidental do século XXI, mostrando que a história do ateísmo não é linear, que não parte de um cenário exclusivamente religioso para chegar a um triunfo absoluto da descrença. Ao contrário, que ateísmo e fé convivem lado a lado na trajetória humana, contrapondo-se, como duas faces da mesma moeda. A história, como aqui exposta, revelou que o Estado Ateu também não é solução. Como o Estado ainda quer achar um caminho pra humanidade, talvez melhor mesmo seja um estado sem religião, que não persiga ninguém, que não se mete em religião nenhuma, e que ao mesmo tempo aceite todas as religiões. Daí surge outra esperança pra Alice perdida em meio a tantos caminhos, o chamado Estado Laico.


4. ESTADO LAICO

Laico, por etimologia, vem da expressão grega “laos” que designava o povo em sentido mais amplo. Aqui vale descrever que povo dá uma ideia de população, ou seja, indivíduos vivendo sem constituição, sem instituições, e sem forma de governo. Assim temos como exemplo os índios e os religiosos. Portanto está correto dizer que cristãos, por exemplo, é povo de Deus. Mas não é correto dizer que brasileiros é povo, pois estão sob a constituição de Estado. Correto é dizer que os brasileiros são cidadãos de um Estado de língua latina localizado na América do Sul.

O Brasil se tornou nação oficialmente emancipada a partir de sua constituição em 1824. Desta data pra trás se diz, de modo correto, cidadãos da América Portuguesa e não se diz cidadãos brasileiros. De mesmo modo, não se diz Brasil Colônia. No entanto chamar tudo de Brasil a partir da chegada do navegante Cabral se tornou cultural em nossos dias. Note que se diz regularmente que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil no ano de 1500. Com isso, os brasileiros parecem gostar mais de ser chamados de povo ao invés de cidadãos. A “História da América Portuguesa de Sebastião da Rocha Pita” é um livro de referência de leitura obrigatória para todos os que se interessam pelos primórdios da história do Brasil.

O termo grego laos, como já dito, referia-se, à população, ao povo todo, sem exceção alguma. Embora o Brasil tenha a maioria católica, em meio a etnias, diferentes raças, e variedades de religiões torna o termo laico aceitável. Daí a simpatia de chamar o país de Laico. Em 1988, o Brasil se tornou um Estado constitucionalmente Laico, mais por simpatia do que por ideologia.

Mas afinal, o que é um Estado Laico? O que isso tem a ver com Deus, política e religião?

O laicismo é um pensamento que defende que a religião não deve ter influência no Estado, o que foi responsável pela separação moderna entre a Igreja e o Estado. Ganhou força com a Revolução Francesa (1789-1799). Daí pode-se dizer que o Estado Laico nasceu com a Revolução Francesa.

Cristãos que são políticos ou politizados têm se inspirado nas palavras de Jesus como o criador desse Estado. Isso é bastante intrigante, ou seja, Jesus criador do Estado Laico!

Ocorreu o seguinte:

Os adversários de Jesus, com intuito de sagacidade, tentaram ludibriá-lo ao forçá-lo a tomar uma posição perigosa sobre a delicada questão do pagamento de impostos aos romanos.

Previram astutamente que Jesus se oporia ao imposto, porque a intenção era que pudessem entregar Jesus à jurisdição e à autoridade do governador romano Pôncio Pilatos.

A princípio bajularam Jesus, elogiando sua integridade, imparcialidade e devoção à verdade. Então lhe perguntaram se era ou não certo que um judeu pagasse um imposto exigido por César.

Jesus primeiro os chamou de hipócritas e em seguida pediu que um deles apresentasse uma moeda que pudesse ser usada para pagar o imposto. Um deles mostrou-lhe uma moeda romana e Jesus então perguntou qual era a inscrição que estava na moeda. Responderam que era de César, ao que Jesus então proferiu a sua famosa frase: Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus (Mateus 22:21).

Bem, dessa frase de Jesus, cristãos políticos, políticos, e religiosos de modo geral, faz uma verdadeira ginástica mental pra explicar a separação de Estado e Religião, o que é denominado de Estado Laico, dando até entender que Jesus é o autor desse pensamento da época da Revolução Francesa.

Se a inspiração do Estado Laico é isso, então abro aqui uma particular interpretação em dizer que Política e Religião são as duas faces da mesma moeda.

Voltando às perguntas: O que isso tem a ver com Deus, política e religião? Eis aí as respostas. Mas ainda faz necessário responder o que é um Estado Laico, pelo menos em teoria.

Um Estado é considerado laico quando promove a separação entre Estado e Religião. Não permite a interferência de correntes religiosas em assuntos de estado. Não privilegia nenhuma religião. Trata os cidadãos igualmente, independentemente de escolha religiosa. Deve garantir e proteger a liberdade religiosa.

Dessa forma de Estado tão em moda, Alice prefere sentar e permanecer parada, pois é o melhor que pode fazer se ainda não leu os ensinamentos do Mestre Jesus.


5. CONCLUSÃO

Por mais que as pessoas tentem encontrar uma solução para a humanidade por caminhos políticos ou religiosos, não a encontrarão por uma razão muito simples: religião e Estado são constituídos por pessoas, e pessoas são falhas. O que se deve entender é que Deus não veio ao mundo para consertar todos os conflitos da humanidade. Veio para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Quem crê Nele não é condenado, mas quem não crê já está condenado (João 3:16). Como disse Jesus: “O meu governo não é deste mundo” (João 18:36).

Mas enquanto não volta, vamos vivendo normalmente. O melhor que podemos fazer, seja como cidadãos ou povo, é não nos iludir pensando que o Estado pode oferecer alguma solução para a humanidade. Como visto neste artigo, a solução não é para a humanidade, e sim, para qualquer indivíduo que se converta a Deus. E converter-se a Deus não é simplesmente fazer parte de uma religião qualquer, porque a salvação de Cristo Jesus não é por grupos sociais, e sim, individualmente.

Nota da Aya Editora:

Teologia e Ciência: Rumo a uma Visão Integrada do Mundo – Volume 4

“Organizado pelo Prof. Dr. Adriano Mesquita Soares, este volume Teologia e Ciência: Rumo a uma Visão Integrada do Mundo – Vol. 4 promove um diálogo interdisciplinar entre espiritualidade, filosofia, matemática e ciências humanas. Com enfoque em temas como o infinito, a teologia mística, a relação entre religião e política e debates bioéticos contemporâneos, o livro articula diferentes perspectivas sobre a presença do sagrado no mundo moderno. Destinado a pesquisadores e estudiosos da teologia, filosofia e ciências sociais, este volume oferece reflexões críticas sobre as interações entre razão, fé e cultura, contribuindo para uma visão ampliada da existência e da realidade”.

Cordialmente,
Prof. Jobson Victorino


📘 Nota ao leitor:
Este texto faz parte da coletânea Prelúdio Gênesis e está publicado aqui em versão fluida, preparada para leitura confortável em celulares.
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