Parte 1/5 - As Bestas do Antigo e do Novo Testamento
Parte 1/5 - As Bestas do Antigo e do Novo Testamento
Este artigo-aula investiga a construção simbólica das bestas no Antigo e no Novo Testamento, destacando a complexa relação entre fé, linguagem e poder. Com base em uma análise comparativa entre o livro de Daniel e o Apocalipse de João, o texto distingue as chamadas bestas danielinas — com destaque para o quarto animal — das bestas joaninas, figuras emblemáticas do imaginário apocalíptico cristão. O estudo percorre ainda a formação da linguagem apocalíptica na tradição mesopotâmica, a influência das teologias cristãs na consolidação da ideia de “besta” e as múltiplas possibilidades interpretativas do simbolismo presente nas Escrituras. Como artigo-aula, busca despertar no leitor uma consciência crítica e espiritual, articulando história, fé honesta e leitura ética da Bíblia.
Palavras-chave: besta joanina, besta danielina, linguagem apocalíptica, simbologia bíblica, poder, fé honesta, interpretação crítica.
- 🔷1. Como as tradições cristãs interpretam a figura da Besta
- 🔷2. As Teologias Cristãs e a Construção da Besta
- 🔷3. Apocalipse: A linguagem simbólica e as possibilidades e sentido
- 🔷4. Mesopotâmica e a formação da Linguagem apocalíptica
- 🔷5. Comparação entre Daniel e Apocalipse
- 🔷6. Uma chave para compreensão
1. Como as tradições cristãs interpretam a figura da besta
Desde os primeiros séculos, a figura da besta descrita no livro do Apocalipse tem sido objeto de múltiplas interpretações dentro das tradições cristãs. Ao longo da história, esse símbolo foi constantemente relido à luz dos contextos sociais, políticos e espirituais de cada época — o que revela tanto a força plástica da linguagem apocalíptica quanto a inquietação humana diante do mal institucionalizado.
Os primeiros séculos
Nos primeiros séculos do cristianismo, os pais da Igreja — como Irineu, Hipólito e Tertuliano — abordaram o Apocalipse com reverência e cautela. Para muitos deles, a besta representava o Império Romano: opressor, violento e perseguidor dos cristãos. As referências a “sete cabeças e dez chifres” eram interpretadas como alusões aos imperadores romanos, à cidade de Roma e às forças políticas que sustentavam o domínio imperial. A linguagem simbólica servia como recurso de resistência — uma forma de denunciar o mal sem nomeá-lo diretamente, protegendo a comunidade cristã.
Idade Média
Durante a Idade Média, com o fortalecimento da Igreja institucional e a influência da teologia escolástica, a besta passou a ser entendida majoritariamente como uma força espiritual do mal. Muitos teólogos viam nela a representação do pecado coletivo, das heresias e da desordem moral que ameaçavam a unidade da fé. A interpretação apocalíptica era integrada à visão de mundo hierárquica e teocêntrica daquele tempo, com forte ênfase moral e simbólica.
Início da Idade Moderna
Com a chegada da Reforma Protestante, no século XVI, a leitura da besta assumiu um tom mais contundente. Reformadores como Martinho Lutero e João Calvino passaram a identificar a besta com a própria instituição papal, considerada por eles corrompida e distante das Escrituras. Para os reformadores, o poder absoluto da Igreja de Roma se aproximava da tirania denunciada pelo Apocalipse. Em resposta, setores católicos também usaram a figura da besta contra os movimentos heréticos. Esse período marcou um ponto de virada: a besta passou a ser utilizada como instrumento teológico de denúncia e polarização.
Metade do século XIX
No contexto do século XIX, surgiu a teologia dispensacionalista, especialmente entre teólogos anglo-saxões como John Nelson Darby. Essa corrente propôs uma leitura literal, futurista e sistematizada do Apocalipse. A besta foi então associada a um futuro governo mundial, ao anticristo e à chamada “grande tribulação”. A teologia dispensacional ganhou enorme influência entre igrejas evangélicas nos Estados Unidos, sendo amplamente difundida através de conferências, bíblias de estudo e até na cultura popular. Contudo, essa abordagem, por vezes desconectada do contexto histórico do texto bíblico, acabou servindo de base para interpretações sensacionalistas ou teorias apocalípticas modernas.
Início do século XX
No século XX, outras correntes teológicas ofereceram novas interpretações. A teologia liberal passou a entender a besta como um símbolo psicológico ou social, representando o medo coletivo e as estruturas de alienação moral. Já a teologia da libertação identificou a besta com sistemas opressores — políticos, econômicos, ambientais — que produzem desigualdade, violência e exclusão. Nessa leitura, a besta não é um monstro futuro, mas uma realidade que opera nas estruturas injustas do presente.
Dias atuais
Nos tempos recentes, com a proliferação de redes sociais e canais informais de comunicação, cresceram interpretações populares que atribuem à besta um caráter conspiratório: microchips, inteligência artificial, vacinas, moedas digitais ou sistemas de controle global. Essas ideias — frequentemente descoladas da tradição bíblica e teológica — ressoam mais como superstições modernas ou teorias da conspiração religiosas do que como fé amadurecida. Em vez de iluminar, essas interpretações obscurecem o real desafio ético do texto apocalíptico.
A pluralidade dessas leituras nos mostra que a besta, antes de ser um enigma a ser decifrado, é um espelho que reflete as angústias e os confrontos de cada tempo. Sua força simbólica está em sua capacidade de ser reconhecida em diferentes faces do poder, e sua utilidade teológica está em nos ensinar a discernir o espírito das estruturas humanas. Mais do que temê-la, somos convidados a compreendê-la — com coragem, maturidade e fé crítica.
2. As teologias cristãs e a construção da besta
Ao longo da história do cristianismo, diferentes correntes teológicas não apenas interpretaram o livro do Apocalipse, mas ajudaram a moldar a própria imagem da besta. A forma como essa figura simbólica foi compreendida revela muito sobre o modo como cada época lidou com o poder, o mal e a esperança escatológica. Entre o temor do fim dos tempos e a leitura crítica da realidade, as teologias cristãs participaram ativamente da construção desse símbolo, atribuindo-lhe sentidos que vão do espiritual ao político, do ético ao conspiratório.
Teologia Patrística (pais da Igreja)
Nos primeiros séculos da era cristã, os chamados pais da Igreja buscaram estabelecer os fundamentos da fé diante de perseguições, heresias e da convivência com o Império Romano. Nesse contexto, a figura da besta foi interpretada como símbolo do poder opressor que se opunha ao Reino de Deus.
Irineu de Lyon, por exemplo, via na besta uma manifestação escatológica do mal, mas sempre dentro de uma leitura simbólica e esperançosa da história.
Hipólito de Roma tentou decifrar os números e imagens do Apocalipse como eventos concretos, mas reconhecia o valor simbólico das visões.
Orígenes, influenciado pela filosofia platônica, via na besta uma representação espiritual das forças contrárias à alma racional e ao bem.
Para os teólogos patrísticos, a besta não era um enigma conspiratório, mas uma linguagem teológica para compreender o sofrimento, a opressão e a fidelidade no tempo presente. A leitura simbólica predominava, e a interpretação era feita com base na esperança da vitória de Cristo — não no medo do controle totalitário do futuro.
Teologia Medieval
Com o fim das perseguições e a cristianização do Império Romano, a teologia cristã entrou em um novo estágio. Entre os séculos V e XIII, consolidou-se a chamada teologia escolástica, marcada por uma busca de sistematização da fé e diálogo com a razão filosófica, especialmente a de Aristóteles. Nesse período, a interpretação da besta deixou de se referir a um inimigo externo e passou a ser entendida como uma realidade espiritual e moral, presente no drama da história humana.
Santo Agostinho via o Apocalipse como uma revelação da luta entre a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens. Para ele, a besta simbolizava o orgulho, a ambição e a corrupção das estruturas humanas sem Deus. Não se tratava de um monstro literal, mas de uma forma simbólica de narrar a decadência da história sob o domínio do pecado.
Já Tomás de Aquino, no século XIII, manteve o respeito pela simbologia apocalíptica, mas colocou ênfase na lógica da salvação e da razão. A besta, em sua leitura, era compreendida como parte do drama escatológico — não para prever datas, mas para preparar o espírito para a vigilância e a fé ativa.
Durante a Idade Média, também surgiram interpretações que associavam a besta a movimentos heréticos, ao anticristo e a figuras de desordem moral ou doutrinária. Porém, mesmo nesses casos, prevalecia a compreensão de que a besta representava a ruptura com a ordem divina e não uma entidade concreta e nomeável. A simbologia bíblica era usada para refletir sobre o bem, o mal, a virtude e o juízo — nunca como ameaça conspiratória.
Teologia Reformada
A Reforma Protestante, iniciada no século XVI, marcou uma ruptura profunda na história do cristianismo ocidental. Nesse novo cenário, a figura da besta passou a ser reinterpretada com uma contundência inédita.
Para reformadores como Martinho Lutero e João Calvino, a besta simbolizava a corrupção doutrinária e moral da Igreja Católica Romana, especialmente do papado, que era visto como um desvio do verdadeiro evangelho.
Lutero chegou a chamar o papa de "anticristo" em seus escritos, utilizando a simbologia apocalíptica para denunciar o que considerava abusos de poder, indulgências vendidas e distanciamento das Escrituras. A besta, nesse contexto, deixou de ser uma ameaça futura e se tornou uma presença histórica e institucional, contra a qual era preciso resistir com base na autoridade da Bíblia e na justificação pela fé.
Calvino, embora mais contido, também via na besta uma metáfora do poder religioso distorcido. Para os reformadores, o Apocalipse deixava de ser apenas um livro do fim dos tempos e passava a ser um instrumento de crítica profética ao presente. Essa visão influenciou profundamente a espiritualidade reformada e os movimentos posteriores que buscavam "purificar" a fé cristã de suas alianças com o poder.
Por outro lado, setores católicos responderam com igual intensidade, aplicando a imagem da besta a movimentos protestantes, acusando-os de cisma e rebelião. O resultado foi um uso teológico do símbolo como instrumento de disputa religiosa — muitas vezes perdendo sua profundidade ética e espiritual em nome de combates institucionais.
Teologia Dispensacionalista
No século XIX, em um contexto de intensas transformações sociais e científicas, surgiu uma nova corrente teológica chamada teologia dispensacionalista, com forte influência no mundo anglo-saxão. Um de seus principais formuladores foi John Nelson Darby (um pregador anglo-irlandês), seguido por Cyrus Scofield, (um pregador americano - Igreja Congregacional) cujas anotações bíblicas ajudaram a disseminar essa visão em larga escala. Ao contrário das interpretações simbólicas ou morais anteriores, o dispensacionalismo propôs uma leitura literal, futurista e cronológica das profecias apocalípticas.
Nessa abordagem, a besta passa a ser vista como uma figura política real — um governante mundial que surgirá no fim dos tempos para instaurar um sistema de controle total, associado ao anticristo e à famosa “marca da besta.” Essa leitura ganhou força nos Estados Unidos e moldou profundamente o imaginário escatológico de muitas igrejas evangélicas contemporâneas, especialmente através de conferências proféticas, literatura popular e filmes apocalípticos.
Embora tenha revitalizado o interesse pelo Apocalipse, essa corrente também abriu espaço para interpretações sensacionalistas e teorias conspiratórias, muitas vezes descoladas do contexto bíblico e histórico. A besta deixa de ser um símbolo crítico do poder opressor e passa a ser uma entidade futura específica, associada a sistemas globais, tecnologias emergentes ou figuras políticas contemporâneas. O medo substitui a vigilância espiritual, e a esperança cede lugar à expectativa de catástrofe iminente.
Teologia Liberal
A chamada teologia liberal emergiu entre os séculos XIX e XX como uma tentativa de reconciliar a fé cristã com os avanços da ciência, da filosofia e da crítica histórica. Nomes como Friedrich Schleiermacher e Rudolf Bultmann foram fundamentais para esse movimento, que valorizava a experiência religiosa interior, a linguagem simbólica da Bíblia e a necessidade de reinterpretar os textos à luz da modernidade.
Nesse contexto, o Apocalipse — e a figura da besta em particular — deixou de ser compreendido como uma previsão literal de eventos futuros, e passou a ser visto como uma expressão simbólica das lutas internas do ser humano e dos conflitos históricos da humanidade. Para Bultmann, por exemplo, o desafio teológico era "desmitologizar" o texto bíblico: identificar os símbolos e mitos presentes na Escritura e reinterpretá-los de forma existencial, aplicando-os à realidade do homem moderno.
A besta, então, representava não mais um personagem escatológico ou político, mas as estruturas do egoísmo, da dominação e da alienação humana. Essa abordagem permitiu um diálogo frutífero com a filosofia e a psicologia, mas também foi criticada por reduzir a dimensão profética da Bíblia a aspectos exclusivamente subjetivos. Ainda assim, a teologia liberal ofereceu um caminho importante para compreender o Apocalipse como linguagem simbólica e espiritual, abrindo espaço para leituras mais maduras e éticas da fé cristã.
Teologia da Libertação
Na segunda metade do século XX, especialmente a partir da década de 1960, surgiu na América Latina uma corrente teológica profundamente marcada pela realidade da pobreza, da desigualdade e da injustiça: a Teologia da Libertação. Essa teologia propõe uma leitura da Bíblia a partir da ótica dos pobres e oprimidos, recuperando o caráter histórico, político e transformador da fé cristã.
Teólogos como Gustavo Gutiérrez (padre peruano de influências marxista), Leonardo Boff (simpatizante do socialismo) e Jon Sobrino (jesuíta espanhol) passaram a interpretar a besta como símbolo das estruturas de pecado: sistemas econômicos excludentes, regimes autoritários, instituições religiosas cúmplices da opressão. A besta não está apenas “no fim dos tempos”, mas opera nas relações sociais que desumanizam e matam em nome do lucro, do poder ou da doutrina.
Essa abordagem reacende o sentido profético do Apocalipse, como denúncia das forças que se opõem ao Reino de Deus. A marca da besta, nessa perspectiva, é visível na lógica do capital que destrói a dignidade humana, na militarização da vida cotidiana, na exclusão sistemática de povos e culturas. Mas também há esperança: a resistência dos pobres, a solidariedade das comunidades e a fé que transforma tornam-se sinais do Cordeiro que vence a besta.
A Teologia da Libertação não busca prever catástrofes, mas ler os sinais dos tempos para promover justiça, paz e dignidade. A besta, aqui, é desmascarada pela ação concreta do amor político — aquele que rompe com a indiferença e abraça a cruz da história.
Teologias Contemporâneas
No cenário contemporâneo, o cristianismo abriga uma diversidade de vozes que reinterpretam as Escrituras à luz de suas realidades concretas. Surgem, assim, as teologias feministas, negras, ecológicas, indígenas e o pentecostalismo crítico, entre outras expressões que desafiam a teologia tradicional a dialogar com a dor, a cultura e os clamores atuais.
Para essas abordagens, a besta continua sendo símbolo de opressão — mas agora lida a partir da experiência vivida: o machismo estrutural, o racismo sistêmico, o colapso ambiental, o etnocídio de povos originários, a violência religiosa. A besta pode se manifestar no discurso político que nega direitos, na economia que destrói a Terra, ou na religião que justifica o sofrimento como “vontade de Deus”.
Na teologia feminista, por exemplo, a besta pode ser identificada com as estruturas patriarcais que perpetuam o silenciamento das mulheres. Na teologia negra, ela se revela no racismo histórico, escravagista e institucionalizado. Já na teologia ecológica, o símbolo da besta dialoga com a destruição da Casa Comum, o extrativismo predatório e a indiferença à crise climática.
Até mesmo no pentecostalismo crítico — vertente que resgata o poder do Espírito como força libertadora — a besta pode ser vista como os mecanismos que aprisionam a fé ao consumo, ao espetáculo e à alienação. Nessas leituras, o Apocalipse não é uma tragédia anunciada, mas uma denúncia corajosa e um convite à ação ética, encarnada e espiritual.
Concluindo: o risco da leitura mítica e conspiratória
Ao longo da história, a figura da besta no Apocalipse foi reinterpretada por diferentes teologias como símbolo do mal institucionalizado, das forças que oprimem, manipulam e desumanizam. No entanto, especialmente em tempos de medo, instabilidade ou desinformação, esse símbolo pode ser distorcido e capturado por discursos conspiratórios, que perdem de vista o seu sentido ético, profético e libertador.
Em vez de servir ao discernimento espiritual, a besta passa, em certos contextos, a ser usada como ferramenta de acusação arbitrária, criando inimigos imaginários, culpados pré-definidos e interpretações que beiram a superstição. Nomes, partidos, tecnologias e até vacinas já foram associados à “marca da besta” — muitas vezes sem qualquer base bíblica, teológica ou racional.
Essas leituras, além de desrespeitarem a complexidade do texto sagrado, alimentam o medo e a desconfiança, afastando a fé de seu compromisso com a verdade, a justiça e a caridade. Transformam o Apocalipse em um manual de pânico, quando, na verdade, ele é um livro de revelação, esperança e fidelidade ao Cordeiro.
Discernir entre símbolo e superstição, entre profecia e paranoia, é um dos grandes desafios da espiritualidade atual. Para isso, é necessário conhecer a história, ouvir a diversidade das tradições teológicas e manter viva a coragem profética que denuncia a besta real — aquela que habita as estruturas que matam e o silêncio que consente.
Quadro-resumo das correntes teológicas e suas interpretações da besta
| Corrente Teológica | Principais Representantes | Interpretação da Besta |
|---|---|---|
| Teologia Patrística | Irineu de Lyon, Hipólito de Roma, Orígenes | Símbolo do poder opressor, geralmente o Império Romano; leitura simbólica e espiritual. |
| Teologia Medieval | Santo Agostinho, Tomás de Aquino | Representação moral e espiritual do mal e da corrupção da história humana. |
| Teologia Reformada | Martinho Lutero, João Calvino | Denúncia institucional: o papado como a besta; crítica ao poder religioso corrupto. |
| Teologia Dispensacionalista | John Nelson Darby, Cyrus Scofield | Leitura literalista e futurista; besta como governante global no fim dos tempos. |
| Teologia Liberal | Friedrich Schleiermacher, Rudolf Bultmann | Símbolo existencial e psicológico do mal; foco na interpretação simbólica e crítica. |
| Teologia da Libertação | Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff, Jon Sobrino | A besta como estruturas de opressão política, econômica e religiosa. |
| Teologias Contemporâneas | Katie Cannon, James Cone, Ivone Gebara, Ailton Krenak (em diálogo) | Símbolo das opressões atuais: racismo, machismo, colonialismo, destruição ambiental. |
3. Apocalipse como Revelação: A Linguagem Simbólica e as Possibilidades de Sentido
Muitos brasileiros conhecem o Hino Nacional Brasileiro e o cantam com fervor, mas poucos compreendem o significado profundo de suas palavras, escritas em um português arcaico e carregadas de referências históricas específicas do século XIX. Esse distanciamento entre a forma e o entendimento ilustra bem o desafio que enfrentamos ao tentar interpretar textos antigos, como o Apocalipse de João, que utiliza uma linguagem simbólica e cheia de metáforas para transmitir sua mensagem.
O Apocalipse pertence ao gênero literário apocalíptico, uma tradição que também inclui o livro de Daniel, e que surgiu no contexto cultural da Mesopotâmia. Essa forma de escrita utilizava símbolos, imagens e números para revelar — e não simplesmente prever — realidades espirituais e sociais, especialmente em tempos de perseguição e opressão.
O desafio da compreensão simbólica no tempo presente
Assim como o Hino Nacional perdeu parte do sentido original para muitos brasileiros, o Apocalipse apresenta uma linguagem que, para as comunidades do primeiro século, era clara e significativa, mas que hoje requer uma leitura cuidadosa para que seu significado profundo não se perca ou seja distorcido.
O número da besta: 666 e 616
Entre os símbolos mais enigmáticos do Apocalipse está o número da besta, tradicionalmente conhecido como 666, mas que aparece como 616 em alguns manuscritos antigos. Essa variação sugere a utilização da gematria — sistema em que letras correspondem a números — para codificar nomes ou conceitos ligados ao poder opressor do tempo, provavelmente o império romano.
Contexto cultural da Mesopotâmia e o legado apocalíptico
O estilo apocalíptico do Apocalipse tem suas raízes na literatura da antiga Mesopotâmia, onde visões e símbolos eram usados para descrever forças espirituais e políticas que moldavam a realidade. O livro de Daniel, parte dessa tradição, influenciou diretamente a construção simbólica da besta em João, mostrando a continuidade e adaptação desse gênero literário no cristianismo nascente.
Reconhecer essa herança é essencial para interpretar a besta não como um monstro literal do futuro, mas como um símbolo poderoso, flexível e presente em múltiplos contextos históricos, capaz de personificar os desafios éticos e espirituais que persistem na história humana.
É inevitável, portanto, que para compreender plenamente o simbolismo da besta e a variação dos números 666 e 616, façamos uma imersão no contexto cultural e literário da antiga Mesopotâmia. Essa cultura influenciou profundamente a tradição apocalíptica, trazendo uma linguagem simbólica que buscava revelar verdades espirituais e sociais, e não gerar confusão ou misticismo.
A variação entre 666 e 616 sugere que o número da besta não deve ser visto como uma simples cifra para identificar nomes por meio de numerologia, como em práticas esotéricas, mas sim como um símbolo complexo e multifacetado. Essa compreensão está em harmonia com a mensagem de Jesus, o Mestre, que ensinava com clareza e buscava iluminar, não confundir.
Este caminho nos convida a explorar não apenas os símbolos, mas as raízes históricas e culturais que deram origem ao Apocalipse, preparando-nos para um entendimento mais profundo e fundamentado da figura da besta e de sua mensagem para os cristãos de ontem e de hoje.
4. A Cultura Mesopotâmica e a Formação da Linguagem Apocalíptica Bíblica
Para compreender plenamente o estilo literário do livro de Daniel — e, por consequência, do Apocalipse de João — é necessário olhar para além do contexto religioso judaico e mergulhar na cultura mesopotâmica, onde Daniel viveu exilado. A antiga Mesopotâmia, berço de civilizações como os sumérios, acádios, babilônios e assírios, foi também o berço de uma tradição literária rica em visões, símbolos e narrativas cósmicas. Nesse ambiente, a linguagem simbólica e visionária floresceu como forma de compreender o mundo, o poder e o destino.
A Mesopotâmia como berço cultural
A Mesopotâmia, região entre os rios Tigre e Eufrates, abrigou algumas das culturas mais influentes da Antiguidade. Ali surgiram as primeiras cidades, os primeiros impérios e os primeiros textos literários da humanidade. O ambiente era profundamente religioso e cósmico: deuses lutavam entre si, monstros representavam o caos, e reis eram vistos como representantes do divino na Terra. Era nesse cenário que surgiam histórias destinadas a explicar o mundo e o destino dos povos.
Sonhos, símbolos e monstros
Textos como o Enuma Elish (mito da criação babilônico), a Epopéia de Gilgamesh, os oráculos reais assírios e os registros de visões interpretadas pelos sacerdotes mostram que o imaginário simbólico era parte viva da cultura. Era comum que os deuses se manifestassem por meio de sonhos, e que o futuro dos reinos fosse revelado através de imagens enigmáticas — muitas vezes envolvendo animais híbridos, números sagrados e forças cósmicas.
Essa linguagem simbólica não era enfeite, era código cultural. Assim como hoje usamos ícones e emojis para expressar sentimentos complexos, os antigos usavam animais, elementos naturais e estruturas numéricas para representar ideias como poder, desordem, eternidade e justiça divina.
Daniel: um profeta no exílio babilônico
O livro de Daniel foi escrito (ou ambientado) no período em que os judeus estavam no exílio babilônico, sob o domínio de impérios poderosos. Daniel, figura central do livro, é descrito como alguém que interpretava sonhos e visões para os reis — uma função muito semelhante à dos sacerdotes-caldeus da Mesopotâmia. Suas visões com quatro grandes feras saindo do mar, um carneiro e um bode, e a famosa estátua de vários metais, refletem claramente a influência dos símbolos mesopotâmicos e do estilo literário apocalíptico.
Daniel absorveu essa linguagem e a ressignificou para seu contexto: em vez de glorificar os impérios, ele os confronta. Em vez de usar os monstros como figuras mitológicas, transforma-os em representações do poder humano corrompido. A mensagem se torna profética e ética: o reino de Deus será diferente — e vencerá.
Da Mesopotâmia a João: a ponte simbólica
Séculos depois, João, o autor do Apocalipse, retoma essa tradição simbólica. Seus monstros, números e visões celestes dialogam com Daniel — mas também com a herança mesopotâmica que moldou a imaginação profética judaica. A besta que emerge do mar com múltiplas cabeças, o número 666 (ou 616), os reinos que sobem e caem, os selos, os tronos, os anjos guerreiros — tudo isso carrega traços profundos da linguagem apocalíptica nascida no berço da Mesopotâmia e reinventada sob a luz do Cristo.
Compreender essa linhagem simbólica não é apenas um exercício histórico, mas uma chave espiritual e intelectual para decifrar o Apocalipse sem cair na armadilha do misticismo. Trata-se de um convite a ler com sabedoria, com reverência, e sobretudo com consciência histórica.
5. Comparação entre Daniel e Apocalipse
Ao longo da história cristã, muitas interpretações identificaram a quarta besta de Daniel com a primeira besta do Apocalipse. No entanto, uma análise cuidadosa do contexto, da simbologia e da estrutura literária revela que essas figuras, embora relacionadas, não são idênticas. Abaixo, apresentamos uma reflexão comparativa que destaca as principais diferenças entre elas.
🧭 Contexto histórico e cultural diferente
Daniel foi escrito (ou finalizado) durante o período do exílio babilônico ou logo após, entre os séculos VI e II a.C. Seu pano de fundo envolve impérios orientais como Babilônia, Medo-Persa e Grécia.
Apocalipse foi escrito no final do século I d.C., sob o domínio do Império Romano, em um tempo de perseguição aos cristãos e expectativa escatológica de redenção.
👉 Conclusão: As ameaças enfrentadas são distintas: para Daniel, a opressão babilônica e grega; para João, o domínio e a propaganda imperial romana.
📜 Propósito literário distinto
Em Daniel 7, as quatro bestas representam reinos históricos que se sucedem no tempo. A mensagem está centrada no juízo de Deus e na vinda do “Filho do Homem” para instaurar um reino eterno.
Em Apocalipse 13, aparecem duas bestas: uma que emerge do mar e outra da terra. Elas não sucedem outras bestas, mas atuam juntas, como agentes do dragão (Satanás), formando um sistema de dominação ideológica, religiosa e econômica.
👉 Conclusão: Daniel descreve reinos sob juízo divino; João descreve um sistema de engano e culto forçado a serviço do mal escatológico.
🔢 Estrutura e número das bestas
| Livro | Quantidade de Bestas | Função das Bestas |
|---|---|---|
| Daniel 7 | Quatro | Representam reinos históricos consecutivos |
| Apocalipse 13 | Duas | Representam o sistema de dominação no “tempo do fim” |
👉 Conclusão: A diferença numérica e funcional reforça que não são as mesmas entidades, ainda que compartilhem elementos simbólicos.
🧬 Evolução da simbologia apocalíptica
João escreve séculos depois de Daniel. Ele reutiliza imagens apocalípticas — como o leopardo, o urso e o leão — para criar uma figura composta, mais complexa. A besta do Apocalipse carrega traços dos reinos anteriores, mas surge como um novo símbolo.
Ao fundir essas imagens, João está construindo algo novo: a síntese simbólica do mal ao longo da história, agora manifestada como uma entidade espiritual, ideológica e global.
👉 Conclusão: A besta do Apocalipse não repete as de Daniel — ela as incorpora, supera e transforma.
🕊️ Implicação teológica
Se as bestas fossem a mesma entidade, o Apocalipse seria apenas uma repetição de Daniel. Mas João tem outro propósito: consolar uma igreja perseguida, advertir contra a idolatria política e reforçar a fidelidade ao Cordeiro.
A besta do Apocalipse atua num sistema de engano, adoração forçada e controle — ela representa mais que um império: representa um princípio maligno que atravessa culturas e épocas.
👉 Conclusão: A função teológica da besta em Apocalipse é espiritual, abrangente e escatológica.
✅ Síntese final: Por que as bestas não são a mesma entidade?
- Foram escritas em épocas diferentes;
- Representam ameaças distintas (reinos vs. sistema espiritual);
- Têm composição e estrutura diferentes (quatro vs. duas);
- Servem a propósitos literários distintos;
- Exprimem mensagens teológicas complementares, não idênticas.
Essa distinção é essencial para que o leitor compreenda que, embora ambos os livros usem linguagem simbólica semelhante, suas mensagens são independentes e profundamente conectadas ao seu tempo. Com isso, podemos seguir com liberdade e foco na investigação do símbolo da besta em Apocalipse.
6. Uma Chave para a Compreensão
No capítulo 7 do livro de Daniel, quatro animais emergem do mar em uma visão simbólica que tem intrigado leitores há séculos: um leão com asas de águia, um urso erguido de um lado com três costelas na boca, um leopardo com quatro asas e quatro cabeças, e uma quarta besta indescritível, feroz e destruidora. A pergunta que deve orientar nossa leitura não é apenas “o que eles significam hoje?”, mas sim: “O que significavam para os primeiros ouvintes dessa profecia?”
O Leão com asas de águia
Na iconografia da Babilônia, o leão era símbolo de poder real e de domínio. Estátuas de leões guardavam os portões das cidades e palácios (Bernardi, 2006). As asas de águia acrescentam velocidade e majestade, remetendo à supremacia dos babilônios. Essa imagem se encaixa perfeitamente na representação do Império Babilônico, especialmente sob Nabucodonosor II. Na arte babilônica, é comum encontrar a figura do leão alado como guardião das entradas reais, como confirmado por registros arqueológicos do Museu Britânico (Collins, 1993).
O Urso erguido de um lado
O urso pode representar o Império Medo-Persa, caracterizado por sua brutalidade e expansão territorial. O fato de estar “levantado de um lado” é interpretado por muitos estudiosos como uma referência ao domínio desigual entre os medos e os persas — os persas, mais fortes, acabaram liderando o império. As três costelas na boca podem simbolizar as nações conquistadas (possivelmente Lídia, Babilônia e Egito), conforme a leitura histórico-simbólica discutida por Longman III (2008).
O Leopardo com quatro asas e quatro cabeças
O leopardo, animal veloz e predador, é associado ao Império Grego sob Alexandre, o Grande. As quatro asas sugerem uma velocidade impressionante nas conquistas militares — Alexandre conquistou grande parte do mundo conhecido em menos de uma década. As quatro cabeças podem indicar a divisão do império entre os seus quatro generais após sua morte: Cassandro, Lisímaco, Ptolemeu e Seleuco. Essa interpretação é compartilhada por vários autores, como Daniel J. Harrington (1999), que destaca o caráter militar e expansionista desse símbolo.
O Quarta Animal: indomável, feroz e inexplicável
Diferente dos anteriores, essa besta não é comparada a nenhum animal conhecido. Ela possui dentes de ferro, devora tudo e pisa os restos. É a imagem mais assustadora da visão. Muitos estudiosos a associam ao Império Romano — impiedoso, disciplinado e altamente destrutivo. Outros, veem nela uma figura atemporal: o próprio espírito do poder opressor, aquele que excede a compreensão humana (González, 2001).
A linguagem simbólica aqui não é aleatória — ela se ancora em representações reconhecíveis pelos antigos. Esses animais não eram escolhidos por acaso: eram parte do imaginário coletivo da época, e evocavam reações imediatas de temor, respeito ou resistência. A mensagem de Daniel era, assim, profundamente contextual, mas também profética — pois apontava para a transitoriedade dos impérios humanos diante do juízo de Deus (Smith, 2002).
A visão do profeta Daniel, especialmente no capítulo 7, apresenta quatro animais simbólicos que representam reinos ou poderes históricos. Leão, urso e leopardo, por suas características reconhecíveis, têm sido mais facilmente associados a impérios antigos. Mas o quarto animal — indomável, violento, e com dez chifres — permanece uma figura enigmática e desafiadora para a interpretação teológica e histórica.
Embora muitos intérpretes identifiquem esse quarto animal com o Império Romano, destacando sua força, brutalidade e oposição inicial ao cristianismo, essa associação exige cautela. Roma, embora perseguidora nos primeiros séculos, também foi o berço da institucionalização do cristianismo, da proteção dos textos sagrados e da expansão missionária da fé cristã. Essa ambiguidade histórica exige um olhar mais equilibrado.
É importante destacar que, neste artigo, o livro de Daniel é citado como uma referência simbólica complementar, mas não como objeto central da reflexão. Nosso foco permanece na besta do Apocalipse de João, cuja construção simbólica é influenciada por tradições anteriores, mas se manifesta com contornos próprios diante das perseguições vividas no contexto do Império Romano.
A quarta besta de Daniel, com sua aparência inexplicável e sua violência extrema, representa um tipo de domínio que rompe os limites do humano, da justiça e da compaixão — exatamente o oposto do Cordeiro, figura de entrega, humildade e redenção. Assim, a pergunta central continua válida: será que sabemos reconhecer essa besta quando ela surge disfarçada nas instituições que nos cercam?
A importância de conhecer o imaginário da época
Ao compreendermos o que os animais significavam em sua origem, libertamo-nos de interpretações fantasiosas e ganhamos clareza para perceber o que realmente está sendo anunciado: não um mapa de previsões místicas, mas uma crítica contundente ao abuso de poder, com uma visão escatológica centrada no Reino de Deus. O estilo apocalíptico é revelação, não ilusão.
Embora o livro de Daniel ofereça elementos simbólicos que inspiram o Apocalipse de João — como as figuras de animais representando sistemas de poder — nosso foco permanece na figura da besta revelada em Patmos. A referência a Daniel é, portanto, um parêntese interpretativo que enriquece a leitura, mas não substitui o eixo principal da revelação joanina.
A quarta besta de Daniel pode ser vista como um eco remoto da besta do Apocalipse, mas é na experiência vivida por João, em meio à perseguição e ao domínio imperial, que o símbolo atinge sua expressão mais contundente: um poder que se ergue contra o Cordeiro e seduz as nações. A partir daqui, é esse poder que continuaremos a explorar.
Por fim, vale destacar que há uma distinção importante entre a quarta besta de Daniel e a besta do Apocalipse de João. Embora compartilhem simbolismos e linguagem apocalíptica, tratam-se de figuras distintas, surgidas em contextos diferentes e com finalidades teológicas próprias. Abaixo, uma tabela-resumo ajuda a visualizar essas diferenças:
| Característica | Besta de Daniel | Besta do Apocalipse |
|---|---|---|
| Origem literária | Daniel 7, cultura babilônica | Apocalipse 13, cultura greco-romana |
| Natureza simbólica | Quatro bestas, uma por reino | Duas bestas (mar e terra), complexidade escatológica |
| Propósito simbólico | Ciclo de impérios sob domínio de Deus | Revelar o poder anticristão e a fidelidade ao Cordeiro |
| Interpretação dominante | Reinos históricos (Babilônia, Pérsia, Grécia, Roma) | Sistemas opressores, impérios, religiões e tecnologias |
Essa distinção será mais bem explorada ao longo do artigo. Por ora, cabe apenas deixar o alerta: embora dialoguem, as duas bestas não são a mesma entidade. Misturá-las sem critério pode gerar interpretações imprecisas, místicas ou até conspiratórias, distantes da proposta teológica e ética do texto bíblico.
Cordialmente,
Prof. Jobson Victorino
📘 Nota ao leitor:
Este texto faz parte da coletânea Prelúdio Gênesis e está publicado aqui em versão fluida, preparada para leitura confortável em celulares.
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