Parte 3/5 - Desmascarando a Besta
Parte 3/5 - Desmascarando a Besta
Este artigo oferece uma análise detalhada das figuras simbólicas das bestas descritas no livro do Apocalipse, buscando desfazer interpretações simplistas e polarizadas. Inicialmente, diferencia a primeira besta — que representa o poder político opressor — da segunda besta — que simboliza o engano religioso e a propaganda que legitimam esse poder. Destaca-se que associar diretamente Roma ou o papado à besta é um equívoco histórico e teológico, sendo essa visão originada sobretudo na Reforma Protestante, e não no contexto original do texto bíblico. O surgimento do papado é apresentado como um processo gradual e complexo, distante das caricaturas apocalípticas. Por fim, o artigo resgata o conceito do anticristo das interpretações sensacionalistas para mostrar sua verdadeira essência bíblica: um princípio espiritual que se manifesta em diversas formas de negação de Cristo e oposição ao Evangelho, e não como uma figura única e futura. A conclusão reforça a necessidade da fé honesta, do discernimento e da vigilância espiritual diante dos desafios do passado e do presente.
Palavras-Chave: bestas do Apocalipse, marca da besta, números 666 e 616, poder político, engano religioso, papado, Roma, anticristo, filho da perdição, fé honesta, interpretação bíblica, escatologia, apocalipse, simbolismo bíblico, vigilância espiritual.
- 🔷1. A marca da besta: origem e significado do selo
- 🔷2. Um resumo para o entendimento
- 🔷3. Ralidade histórica, mito escatológico e o caminho da paz
- 🔷4. O surgimento do papado: história, função e mitos
- 🔷5. O filho da perdição - o anticristo
1. A Marca da Besta: Origem e Significado do Selo
A expressão “marca da besta” tornou-se uma das imagens mais enigmáticas e debatidas do livro do Apocalipse. No texto original grego, a palavra usada é charagma (χάραγμα), que pode ser traduzida como marca, gravação, estampa ou impressão. Essa palavra era comumente usada no mundo greco-romano para se referir a sinais gravados em moedas, selos oficiais, ou até mesmo em escravos e soldados. Etimologicamente, charagma vem do verbo charassō, que significa “esculpir”, “gravar com instrumento pontiagudo” — o que evoca a ideia de algo permanente e autoritário.
Culturalmente, nos dias de João, o selo ou marca era um símbolo de posse, fidelidade ou autoridade. Era comum que imperadores romanos exigissem lealdade através de símbolos visíveis, como moedas com sua efígie ou rituais de culto imperial. O selo também era usado em documentos, contratos, cartas e testamentos para garantir sua autenticidade e impedir alterações. Um documento selado era um documento confirmado, fechado, legítimo — e apenas uma autoridade reconhecida podia quebrar esse selo.
Nesse sentido, o selo estava associado a segurança, identidade e garantia. O ato de selar era uma forma de validar ou autenticar algo. No mundo antigo, selos eram usados para marcar objetos, fechar cartas e identificar proprietários de bens. Assim, a marca da besta no Apocalipse não é apenas uma mancha física ou literal, mas um sinal de pertencimento ideológico e espiritual — uma espécie de selamento da consciência a serviço de um sistema de dominação.
Selamento
No Antigo Testamento, há também o uso simbólico de selos e marcas. Em Ezequiel 9:4, por exemplo, um sinal é colocado na testa daqueles que gemem pelas abominações em Jerusalém. Esse selo não era visível, mas espiritual — uma proteção divina. Em Apocalipse 7, os servos de Deus recebem um “selo na testa”, contrapondo-se à marca da besta. Temos, portanto, duas formas de lealdade em conflito: o selo de Deus e a marca da besta.
Essa oposição entre selos se estende à simbologia teológica: enquanto o selo de Deus representa fidelidade ao Cordeiro e à verdade, a marca da besta simboliza a adesão a um sistema de engano, dominação e culto forçado. A marca na mão ou na testa (Apocalipse 13:16-17) indica pensamento (testa) e ação (mão) — ou seja, mente e comportamento alinhados ao sistema opressor.
A imagem da marca na testa e na mão (Apocalipse 13:16-17) não precisa ser entendida de forma literal, mas carrega forte simbologia veterotestamentária. Em Deuteronômio 6:6-8, Deus orienta que Suas palavras estejam “no coração”, e que sejam “amarradas como sinal na mão” e “entre os olhos”— ou seja, na mente e nas ações do povo. Essa linguagem hebraica indica que a verdadeira obediência a Deus envolve tanto a interioridade (testa como símbolo da consciência e decisão) quanto a prática (mão como símbolo do agir). No contexto apocalíptico, a marca da besta segue a mesma lógica simbólica: trata-se de uma adesão ideológica (testa) e comportamental (mão) ao sistema que se opõe a Deus.
Portanto, antes de nos aprofundarmos nos números e em interpretações históricas específicas, é fundamental entender que a “marca” não é meramente um objeto visível ou uma tecnologia específica. Ela representa uma escolha, uma identidade espiritual, e uma adesão consciente (ou inconsciente) a um poder que se opõe ao Reino de Deus. O que está em jogo não é apenas economia ou política, mas a lealdade da alma.
É importante observar que as palavras “marca”, “sinal” e “selo” podem aparecer em diferentes versões bíblicas como sinônimos, especialmente em traduções mais antigas ou populares. Embora os termos tenham origens distintas no grego:
— todos compartilham, no contexto apocalíptico, o mesmo valor simbólico: identificação espiritual e lealdade. Assim, seja chamado de sinal, marca ou selo, o que está em jogo é a quem pertencemos, a quem obedecemos, e com quem estamos selados no coração e na consciência.
No contexto histórico e cultural da época de João, é importante lembrar que a ideia de “marca” também tinha conotações econômicas e sociais concretas. O sistema romano, por exemplo, controlava a circulação de moedas e bens, e a fidelidade ao imperador era muitas vezes atestada por símbolos impressos em objetos de uso cotidiano. Assim, a marca da besta sugere um controle abrangente, que vai além do religioso ou espiritual — estendendo-se às esferas política, econômica e social.
Além disso, o próprio Apocalipse associa a marca à capacidade de comprar e vender (Apocalipse 13:17). Isso indica que a rejeição ou aceitação da marca impacta diretamente a sobrevivência econômica e a participação social do indivíduo, reforçando a ideia de um sistema totalitário que impõe conformidade por meio de mecanismos de exclusão e punição.
Por fim, vale destacar que a marca da besta é apresentada no Apocalipse como uma escolha — mesmo diante da pressão extrema e da ameaça. Essa escolha traduz o exercício da liberdade consciente, da fé honesta, da qual falamos frequentemente. Não se trata apenas de uma imposição externa, mas de um alinhamento interno do coração, da mente e da ação, que define o destino eterno do indivíduo.
Dessa forma, a reflexão sobre a marca da besta precisa ir além do literalismo ou da especulação tecnológica e mergulhar no significado espiritual e ético dessa simbologia. Entender o que representa o “selo” é compreender o drama maior do Apocalipse: a batalha entre o bem e o mal, entre a fidelidade a Deus e a submissão ao poder opressor.
O sinal na visão adventista do sétimo dia
A Igreja Adventista do Sétimo Dia sustenta que o sábado é o sinal de Deus entre Ele e o Seu povo fiel, com base em textos como Êxodo 31:13 e Ezequiel 20:12. Para essa tradição, o sábado representa a santificação e o pertencimento a Deus. Por outro lado, afirmam que a observância do domingo, instituída historicamente pelo Império Romano e adotada pela Igreja Católica, é um sinal de lealdade a um sistema apóstata identificado como a besta do Apocalipse.
Essa interpretação leva à tese de que, em um futuro cenário escatológico, um “decreto dominical” será imposto globalmente, e que quem guardar o domingo terá a marca da besta, enquanto quem guardar o sábado terá o selo de Deus. Essa perspectiva tem grande influência no imaginário adventista e na maneira como compreendem os eventos proféticos.
Contudo, essa leitura apresenta alguns desafios hermenêuticos. Por exemplo, a Bíblia fala do sábado como “um” sinal e não necessariamente “o” sinal exclusivo da fidelidade a Deus. Além disso, o Apocalipse não faz nenhuma associação explícita entre o domingo e a marca da besta. O salto interpretativo para identificar o domingo como “o” sinal da besta não encontra respaldo direto nos textos bíblicos, mas nasce mais da tradição interpretativa adventista e do contexto histórico da Igreja.
Além disso, a rigidez dessa posição pode gerar efeitos negativos, como o medo excessivo, o sectarismo e a dificuldade de convivência social para quem a adota. Por isso, é fundamental manter uma postura ética e respeitosa ao abordar essas interpretações, reconhecendo a diversidade de leituras dentro do cristianismo e o impacto que elas têm na fé e na vida prática das pessoas.
Fazendo um paralelo, é interessante observar que o uso do artigo definido ou indefinido em textos bíblicos pode alterar significativamente o sentido. Por exemplo, Jesus é chamado “o caminho” (artigo definido), indicando exclusividade, e não “um caminho” entre vários. No caso do sábado, o texto diz que é “um sinal”, o que abre espaço para outras formas de sinais e manifestações de fidelidade a Deus.
Assim, o tema do “sinal” no Apocalipse requer cuidado, equilíbrio e honestidade hermenêutica, respeitando a complexidade simbólica do livro e evitando interpretações que possam causar mais confusão do que esclarecimento.
Nota
Este texto foi elaborado com o compromisso de promover uma reflexão ética, respeitosa e fundamentada sobre um dos símbolos mais debatidos do Apocalipse. Reconhece-se que o tema da “marca da besta” é interpretado de maneiras diversas por diferentes tradições cristãs, especialmente no contexto adventista. A proposta aqui não é polemizar, mas oferecer caminhos de compreensão à luz da história, da cultura e da exegese bíblica. O objetivo é contribuir para o amadurecimento espiritual dos leitores, com base no princípio da fé honesta — aquela que busca a verdade com humildade, liberdade de consciência e compromisso com o bem. Crenças sinceras merecem respeito; interpretações rígidas, contudo, merecem ser examinadas com serenidade e coragem.
2. Um Resumo Para o Entendimento
Ao longo da história, muitas interpretações foram construídas em torno das bestas descritas no capítulo 13 do Apocalipse. Em muitos casos, houve confusão entre essas figuras e a “besta” do livro de Daniel, ou mesmo uma fusão simbólica entre as duas bestas joaninas como se fossem uma só. Vale conferir Parte 1 — As Bestas do Antigo e do Novo Testamento.
Por isso, antes de avançarmos para os números misteriosos que marcam essas figuras — como o 666 e o 616 — é essencial retomarmos com serenidade e clareza: afinal, quem são essas bestas?
A primeira besta: o poder político mundial e opressor
A primeira besta surge do mar (Apocalipse 13:1-10). Ela recebe poder do dragão (Apocalipse 12:17) e é descrita com características semelhantes às bestas do livro de Daniel — como se fosse um mosaico de todos os impérios anteriores. Seus chifres, cabeças e nomes de blasfêmia apontam para um sistema de dominação totalitária, que une força militar, culto forçado e perseguição aos que resistem.
Essa besta representa estruturas políticas globais e imperiais que se colocam contra os valores do Reino de Deus. Ela simboliza o uso do Estado e da força institucionalizada para impor ideologias, cultos e estilos de vida em desacordo com a liberdade espiritual e a verdade do Evangelho. Seu poder atinge “todos os povos, tribos, línguas e nações” (Apocalipse 13:7), e sua sedução é tão profunda que os habitantes da Terra a adoram — não apenas por medo, mas por fascínio.
A segunda besta: o engano religioso e a propaganda sedutora
A segunda besta aparece logo em seguida, subindo da terra (Apocalipse 13:11-18). Diferente da primeira, ela tem aparência de cordeiro, mas fala como dragão — ou seja, parece inofensiva e espiritual, mas carrega o mesmo discurso do mal. Ela representa sistemas religiosos, ideológicos ou espirituais que atuam como propaganda e legitimação da primeira besta.
Essa figura engana, realiza “sinais”, promove culto à primeira besta e impõe a marca (charagma) que diferencia os leais ao sistema opressor daqueles que não o aceitam. Sua missão não é conquistar com espada, mas seduzir com discurso. Ela trabalha no campo da mente, da religião, das aparências e do controle simbólico — é o poder do engano que veste a roupagem da fé.
Por que essa distinção é importante?
Compreender que existem duas bestas distintas ajuda a evitar interpretações apressadas, radicalismos religiosos e confusões escatológicas. As duas bestas atuam em parceria: uma impõe, outra ilude. Uma domina com força; outra, com aparência de verdade. Essa combinação tem poder de conquistar consciências, manipular massas e institucionalizar o mal em nome da paz ou da fé.
E é justamente nesse cenário que surge a famosa “marca da besta” — o sinal de pertencimento ao sistema conjunto dessas duas forças. Essa marca será explorada com mais profundidade nos tópicos seguintes, especialmente quando analisarmos os números 666 e 616. Mas antes disso, era necessário um passo de fé honesta: separar, com cuidado, o que o Apocalipse descreve com precisão — sem fusão apressada, sem pânico profético, e com a serenidade que vem do amor à verdade.
Em outras palavras, a besta não é um monstro do futuro nem uma força invisível do passado. Também não se trata de criaturas hollywoodianas como Godzilla, Drácula ou Alien — o oitavo passageiro. A besta é uma presença contínua e insidiosa, que ressurge sempre que estruturas humanas — políticas, religiosas ou ideológicas — passam a exigir adoração, instaurar o medo e rejeitar a verdade. Onde há culto ao poder, manipulação das consciências e perseguição à liberdade, ali está, simbolicamente, a marca da besta. Não é uma ficção sombria, mas uma realidade simbólica que atravessa os séculos como um alerta para todos os tempos.
Vale ressaltar que pode se manifestar de várias formas: liberdade de consciência, liberdade política, liberdade de expressão, liberdade religiosa — todas ameaçadas quando o “espírito da besta” se manifesta ao longo da história.
3. Realidade Histórica, Mito Escatológico e o Caminho da Paz
Antes de explorarmos os mistérios dos números 666 e 616, é essencial lançar luz sobre um dos equívocos mais persistentes da interpretação apocalíptica: a associação direta e simplista entre a besta do Apocalipse e a cidade de Roma ou o papado. Tal ligação tem sido historicamente usada como instrumento de disputa religiosa entre cristãos — especialmente entre protestantes e católicos — gerando rupturas, desconfianças e até animosidades. Mas será mesmo que o livro do Apocalipse desejava apontar o dedo contra uma igreja específica? Ou será que seu propósito era mais profundo, chamando atenção para qualquer sistema opressor que exige adoração e nega a liberdade?
É inegável que o Império Romano, no contexto do século I, foi uma força brutal de perseguição contra os primeiros cristãos (Ap 1:9; Ap 2:10). O Apocalipse foi escrito dentro desse ambiente de tensão, e muitos dos símbolos usados por João fazem referência ao aparato político e militar. No entanto, o tempo mostrou que o império romano — embora tenha perseguido, torturado e matado cristãos — acabou, paradoxalmente, se curvando diante de Cristo.
Foi em Roma que muitos mártires selaram sua fé com o sangue, e foi também em Roma que o cristianismo floresceu, tornando-se, séculos depois, a religião oficial do Império — primeiro com o Édito de Milão (313 d.C.), promulgado por Constantino, e depois com o Édito de Tessalônica (380 d.C.), oficializado por Teodósio I (GONZÁLEZ, 2008).
É fundamental desfazer um mito comum: não foi Roma que criou o cristianismo; foi Roma que se rendeu ao cristianismo. O movimento cristão já havia nascido décadas antes destes éditos imperiais, entre os humildes da Judeia, nutrido por comunidades perseguidas e marcadas pela fé no Cordeiro. O que ocorreu a partir de Constantino e Teodósio foi um processo de institucionalização: o Império — antes perseguidor — se curvou à força ética e espiritual da mensagem cristã. Ainda que esse processo tenha sido complexo e por vezes contraditório, é incorreto afirmar que o cristianismo tenha sido “criado” por Roma por razões políticas. A fé cristã antecede o poder romano e sobrevive a ele.
O bispo de Roma no tempo de Constantino foi: Papa Silvestre I, que exerceu o episcopado de 314 a 335 d.C. Assim se entende que:
- O cristianismo já existia bem antes de Constantino;
- Já havia uma comunidade cristã estruturada em Roma;
- O papado surgiu gradualmente, e não como invenção imperial.
Afirmar que a Igreja Católica é a besta ou que o Papa seja sua encarnação moderna é um erro tanto teológico quanto histórico. A Igreja Católica — com todos os seus problemas, contradições e sombras — também foi, inegavelmente, uma das maiores difusoras do Evangelho no mundo (METZGER, 1993). Milhares de missionários católicos entregaram suas vidas em lugares longínquos, levando alimento, educação, saúde e o nome de Cristo. Reflita: Seria justo anular tudo isso por causa dos erros humanos de seus líderes?
Aqui segue uma analogia profundamente didática que carrega um espírito reconciliador: um policial pode errar, mas a polícia continua necessária; um médico pode falhar, mas os hospitais continuam salvando vidas; um pastor, papa, rabino ou bispo pode tropeçar, mas Jesus continua sendo Jesus — aquele que disse: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mateus 11:29). Essa é a base da fé honesta: não olhar para os erros humanos como fim de uma esperança, mas lembrar que o amor e a mansidão de Cristo permanecem sendo o verdadeiro SELO (Ap 7:3; 14:1).
Na linguagem bíblica, há mais de um tipo de “selo de Deus”. O sábado é chamado de “sinal” entre Deus e o seu povo (Êxodo 31:13; Ezequiel 20:12), funcionando como uma memória viva da criação e da libertação. Já o amor de Cristo, revelado plenamente na nova aliança, é o selo mais profundo e universal — um sinal espiritual, invisível, eterno, gravado no coração daqueles que seguem o Cordeiro. Como afirma Jesus: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (João 13:35). O verdadeiro selo de Deus, portanto, não se limita a rituais ou dias específicos, mas se manifesta no fruto do Espírito e na prática da justiça, da misericórdia e da fé. Aqui vale conferir Parte 3 - Tópico 1 - A Marca da Besta: Origem e Significado do Selo
O livro do Apocalipse, quando lido com profundidade e sem preconceitos, não chama à condenação de uma instituição específica, mas à vigilância espiritual contra qualquer sistema que corrompa a justiça, que substitua a fé pela violência ou que use a religião como ferramenta de dominação. Ao focar apenas em Roma ou no Papa como "besta", corre-se o risco de ignorar outros contextos igualmente perigosos onde o espírito da besta também opera (Ap 13:4-10).
O espírito do Apocalipse é o da revelação e da esperança — não da guerra entre irmãos. É hora de superarmos os mitos que alimentam rivalidades e abraçarmos a paz que vem do Cordeiro. Só assim poderemos discernir, com fé honesta, os verdadeiros sinais dos tempos.
4. O Surgimento do Papado: História, Função e Mitos
Após esclarecer os equívocos em torno da associação direta entre Roma e a besta do Apocalipse, é essencial tratar de outro ponto sensível e igualmente polêmico: o surgimento do papado. Durante séculos, diversas interpretações apocalípticas — especialmente entre grupos protestantes — identificaram o papa como a encarnação da besta ou como o “anticristo”. Essas leituras, no entanto, não se sustentam historicamente nem teologicamente. Para além da polêmica, o que precisamos é de um olhar mais justo e informado sobre o contexto que originou essa figura religiosa que atravessou os séculos.
O papado, como o conhecemos hoje, não surgiu da noite para o dia. Ele é fruto de um processo gradual que se iniciou nos primeiros séculos da Igreja Cristã. Após o martírio dos apóstolos e o crescimento das comunidades cristãs, os bispos passaram a exercer papel de liderança e organização nas regiões onde atuavam. O bispo de Roma, por estar na capital do Império e por ser associado à tradição dos apóstolos Pedro e Paulo, ganhou destaque entre os demais. Contudo, é importante dizer com clareza: nos três primeiros séculos do cristianismo não havia uma figura de autoridade centralizada como o atual papado.
Nesse contexto, merece atenção o Papa Silvestre I, que exerceu o episcopado de 314 a 335 d.C., sendo contemporâneo direto do imperador Constantino. Embora muitas decisões importantes tenham sido tomadas pelo imperador em concílios como o de Niceia (325 d.C.), a atuação de Silvestre simboliza o início de uma nova fase: a aproximação entre o trono e o altar. Apesar de não ter comparecido pessoalmente ao concílio, enviou representantes e passou a ter sua autoridade reconhecida em níveis antes impensáveis. Seu pontificado marca, assim, uma transição emblemática: a Igreja deixava de ser perseguida para assumir um papel institucional na sociedade imperial romana.
Bispo da cidade de Roma - o papa
Foi somente a partir do século IV — especialmente após o Édito de Milão (313 d.C.) e com a paz de Constantino — que a Igreja passou a se organizar de forma mais visível e institucionalizada. O bispo de Roma começou então a receber títulos e atribuições cada vez mais relevantes. Mas isso não significa que Constantino “inventou” o papado, como afirmam alguns mitos. Na verdade, o que aconteceu foi uma adaptação histórica: com a legalização do cristianismo, as comunidades cristãs passaram a ocupar espaços antes impensáveis na vida pública, o que exigiu novos modos de organização e representação.
O primeiro bispo de Roma a ser chamado “papa da forma clássica como em dias atuais” foi o Papa Leão I (também conhecido como Leão Magno), no século V. Então a palavra “papa” vem do grego pappas, que carinhosamente significa “pai” — título que originalmente era usado para outros bispos também (exemplo: Papa Silvestre I - contemporâneo de Constantino), não exclusivamente o da cidade de Roma. Com o tempo, o título foi sendo reservado ao bispo romano (da cidade de Roma especificamente), e sua autoridade cresceu não apenas espiritualmente, mas também politicamente, especialmente com o enfraquecimento do Império do Ocidente.
Pode-se dizer que entre todos os bispos das diversas cidades, foi o bispo da cidade de Roma que ganhou prestígio sobre os demais. Portanto, o papado não foi uma invenção imperial ou um golpe político, mas uma construção histórica complexa, marcada por disputas, desafios, avanços e retrocessos. Reduzi-lo à figura da “besta” é desconsiderar séculos de teologia, espiritualidade, cultura, arte e serviço à humanidade realizados por homens — falhos, sim — mas que procuraram servir ao Evangelho em seu tempo.
Fazer justiça à história é também um caminho de fé honesta. O Apocalipse nos convida à vigilância e ao discernimento, não à condenação apressada. Não se trata de canonizar ou condenar instituições humanas, mas de discernir os sinais que aproximam — ou afastam — o coração humano da verdade, da justiça e do amor de Deus.
Apêndice – Termos e Conceitos Históricos
Bispo: do grego epískopos, significa “supervisor” ou “vigilante”. Nos primeiros séculos do cristianismo, o bispo era responsável por guiar espiritualmente as comunidades de uma cidade ou região. Era também quem organizava a vida litúrgica, doutrinária e pastoral dos cristãos sob seus cuidados.
Padre: designa o sacerdote responsável por uma comunidade local, chamada paróquia. Subordinado ao bispo, o padre é quem ministra os sacramentos, celebra missas e acompanha a vida espiritual do povo. A palavra “padre” vem do latim pater — pai — e foi mantida em línguas como o espanhol, italiano e português como uma forma de respeito à sua função pastoral.
Diferença entre bispo e padre: o bispo lidera uma diocese — um conjunto de paróquias — enquanto o padre cuida diretamente de uma paróquia. O bispo tem autoridade sobre os padres da região e é o único que pode ordenar novos presbíteros.
Primazia do bispo de Roma: entre os diversos bispos do mundo antigo, o de Roma passou a ter destaque por estar na capital do Império e pela tradição ligada aos apóstolos Pedro e Paulo. Com o tempo, essa preeminência se transformou em primazia espiritual e política, consolidando-se na figura do Papa — título exclusivo do bispo de Roma.
Reforma, Ruptura e o Mito da Besta
É importante destacar que a associação do papa com a figura da besta do Apocalipse não surgiu nos primeiros séculos do cristianismo, nem faz parte da tradição teológica dos Pais da Igreja. Essa leitura só ganhou força a partir do século XVI, durante a Reforma Protestante, quando líderes como Martinho Lutero e João Calvino passaram a usar linguagem simbólica e apocalíptica para denunciar o que consideravam abusos e corrupções no papado da época. A crítica, portanto, tinha um contexto histórico específico de ruptura religiosa e não pode ser interpretada como uma verdade doutrinária universal. Reduzir séculos de história e espiritualidade cristã a um rótulo simbólico de condenação é repetir erros do passado. O chamado do Apocalipse continua sendo o mesmo: discernir com sabedoria, sem ódio nem fanatismo, os sinais que conduzem à justiça, à fé e ao amor verdadeiro.
Por essa razão, também é incorreto aplicar os números 666 ou 616 ao papado, como se o Apocalipse estivesse apontando diretamente para um nome, uma instituição ou uma figura religiosa específica. Essa leitura literalista ignora o contexto simbólico e apocalíptico do texto bíblico, bem como sua linguagem codificada e profundamente enraizada na cultura e nos conflitos do primeiro século. A marca da besta e os números que a acompanham exigem uma análise muito mais cuidadosa e sensível.
5. O Filho da Perdição - o Anticristo
Entre todas as figuras associadas ao fim dos tempos, talvez nenhuma tenha sido tão distorcida quanto o chamado “anticristo”. Filmes, livros e pregações sensacionalistas transformaram esse personagem em um vilão absoluto, quase mitológico, cercado de conspirações e imagens apocalípticas. No entanto, quando voltamos ao texto bíblico com atenção, descobrimos algo surpreendente: a palavra “anticristo” sequer aparece no livro de Apocalipse. O que encontramos, de fato, são outras expressões, como “filho da perdição”, “homem do pecado” e “espírito do erro”. Este capítulo é uma tentativa de desfazer o mito hollywoodiano e recuperar o verdadeiro significado por trás desses termos — com base no que a Bíblia realmente diz.
É surpreendente para muitos descobrir que a palavra “anticristo” não aparece no livro de Apocalipse. Na verdade, esse termo só é mencionado nas cartas de João — especificamente em 1 João e 2 João. E mais: João não fala de um único “anticristo”, mas de muitos. Para ele, anticristo é todo aquele que nega Jesus como o Cristo, que distorce a verdade e que opera contra o amor e a justiça do Evangelho. O “espírito do anticristo”, segundo o apóstolo, já estava presente no mundo no seu próprio tempo. Veja os textos:
1 João 2:18 — “Filhinhos, esta é a última hora; e, conforme ouvistes que vem o anticristo, também agora muitos anticristos têm surgido; por isso conhecemos que é a última hora.”
1 João 2:22 — “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Esse é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho.”
1 João 4:3 — “E todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; mas esse é o espírito do anticristo, do qual tendes ouvido que vem, e agora já está no mundo.”
2 João 1:7 — “Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo fora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne. Esse é o enganador e o anticristo.”
Esses versículos mostram que a figura do anticristo não é a de um vilão escatológico único e futuro, como muitos imaginam. Em vez disso, revelam que o espírito do anticristo já estava presente no tempo dos apóstolos, e que qualquer um que nega a verdade de Cristo encarnado pode ser identificado com essa postura. O anticristo, portanto, não é um personagem de filme de terror hollywoodiano, mas uma realidade espiritual que se opõe ao Evangelho — o que pode ser pessoa.
O Filho da Perdição em 2 Tessalonicenses
Entre os textos mais misteriosos do Novo Testamento está 2 Tessalonicenses 2, onde Paulo fala de um personagem enigmático: “o homem da iniquidade” ou “filho da perdição”. Este trecho, muitas vezes lido com olhos apocalípticos, é um convite à vigilância espiritual — e não ao pânico profético.
Contexto histórico e teológico da carta de 2 Tessalonicenses
A segunda carta de Paulo aos tessalonicenses foi escrita para uma comunidade que vivia momentos de ansiedade e incerteza diante dos rumores sobre o retorno iminente de Cristo. Alguns membros acreditavam que o “dia do Senhor” já havia chegado ou estava prestes a chegar, provocando desespero, desânimo e até abandono das responsabilidades diárias. Essa expectativa gerou confusão e a disseminação de falsas doutrinas, como a ideia de que o “homem do pecado” já teria sido revelado. Paulo, então, escreve para corrigir essas interpretações equivocadas, alertando que certos eventos — como a apostasia e a manifestação do “homem do pecado” — ainda precisam acontecer, e exorta os fiéis a permanecerem vigilantes, pacientes e firmes na fé. Vamos ao texto:
2 Tessalonicenses 2:3–4 — “Ninguém de maneira alguma vos engane; porque isto não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem do pecado, o filho da perdição, o qual se opõe e se levanta contra tudo o que se chama Deus ou é objeto de adoração; de sorte que se assentará como Deus no templo de Deus, querendo parecer Deus.”
A linguagem é densa e simbólica. Paulo está falando de um tempo de confusão espiritual, em que o engano se disfarça de verdade, e onde alguém — ou algo — se exalta acima de Deus. O apóstolo não dá nome a essa figura, nem a define como um ser único e futuro. O “filho da perdição” pode ser entendido como um princípio de oposição à verdade, que se manifesta em líderes, sistemas, estruturas ou ideologias que usurpam o lugar de Deus e promovem a idolatria do ego, do poder ou da mentira.
Atentemos-nos para as palavras-chave: Ninguém vos engane, Venha a apostasia, Homem do pecado – Filho da perdição, Objeto de adoração, Templo de Deus, Parecer Deus.
Paulo inicia com um alerta direto: “Ninguém vos engane”. É um convite à vigilância e à consciência crítica diante de mensagens fáceis ou sensacionalistas. No contexto apocalíptico, muitas vezes surgem interpretações simplistas que buscam identificar um “vilão” único para todos os males. O apóstolo nos lembra que o perigo maior está em deixar-se levar por essas enganações, perdendo o foco no verdadeiro sentido espiritual.
A “apostasia” é o abandono da fé verdadeira, a renúncia aos princípios do Evangelho. Este é o cenário onde o “homem do pecado” se revela. Não se trata apenas de uma pessoa, mas de um processo coletivo de afastamento da verdade divina, que abre espaço para o engano e a idolatria. É um chamado para que o cristão esteja atento ao esfriamento da fé no seu tempo e local.
Homem do pecado – Filho da perdição (palavra-chave)
As expressões “homem do pecado” e “filho da perdição” são usadas por Paulo para simbolizar a oposição ativa e consciente contra Deus. Embora sejam termos fortes, o apóstolo não descreve uma figura única e definitiva, mas aponta para um princípio que se manifesta sempre que forças — pessoais ou institucionais — tentam ocupar o lugar que pertence somente ao Senhor. Essa figura pode representar tanto líderes específicos quanto sistemas ou ideologias que promovem a rebelião contra o Evangelho e a verdade divina.
Mas quem aplica essa passagem ao papa?
Durante a Reforma Protestante do século XVI, líderes como Martinho Lutero e João Calvino interpretaram 2 Tessalonicenses 2 como uma crítica ao papado. Lutero chegou a escrever que “o papa é o verdadeiro anticristo que se exaltou acima de Deus” (Disputatio contra Papatum Romanum, 1545). Calvino, por sua vez, afirmou que o papa “é o homem do pecado, o filho da perdição” (Institutas da Religião Cristã, Livro IV, capítulo 7). Essa leitura foi mantida em confissões históricas, como a Confissão de Fé de Westminster (1646), que também identifica o papado como o “anticristo”.
Contudo, essa interpretação nasceu num contexto de forte ruptura com a Igreja Católica, marcado por abusos e conflitos doutrinários. Hoje, muitos estudiosos reconhecem que essa aplicação era fruto de um momento histórico específico e não corresponde ao contexto exegético da carta de Paulo. O “homem do pecado” representa um princípio espiritual de oposição a Deus, não uma figura institucional fixa.
Um princípio, não uma pessoa única
O “homem do pecado” e o “filho da perdição” devem ser compreendidos como representações de uma realidade espiritual — não como a previsão de uma figura histórica única. Paulo descreve um princípio de oposição que se manifesta repetidamente sempre que a verdade do Evangelho é rejeitada, e quando o mal tenta ocupar o espaço do sagrado. Essa oposição pode surgir por meio de líderes, instituições, ideologias ou sistemas que se colocam no lugar de Deus. Assim, aplicar essa passagem exclusivamente ao papa é um equívoco hermenêutico, que desconsidera o contexto da carta, o tempo em que foi escrita e a natureza simbólica do texto.
O texto destaca que esse “homem” se opõe a tudo o que é chamado Deus ou objeto de adoração, e que pretende ser adorado no templo de Deus. Essa usurpação da adoração revela a essência da idolatria — colocar no lugar de Deus o ego, o poder, ou falsos ídolos. É um alerta contra a arrogância espiritual que busca substituir o Criador pela criatura.
Quando Paulo escreve que o “homem do pecado” se assentará como Deus no “templo de Deus”, ele não está falando de uma construção física específica — muito menos de um templo celeste, o que seria incoerente com a ideia de profanação. Após a morte e ressurreição de Jesus, o templo de Jerusalém deixou de ser o centro da adoração, pois Cristo inaugurou um novo caminho de acesso a Deus: uma nova aliança. A partir daí, como afirmam as próprias Escrituras, o verdadeiro templo passou a ser o corpo dos fiéis, a comunidade habitada pelo Espírito Santo (1Co 3:16-17).
Nesse sentido, o “templo de Deus” mencionado por Paulo representa o espaço sagrado da fé — o lugar espiritual onde Deus deseja habitar. O escândalo, portanto, não está em um trono literal, mas na pretensão de tomar o lugar de Deus nos corações e consciências humanas. O homem do pecado não se instala num edifício de pedra, como o templo construído pelos judeus, mas tenta usurpar o trono interior, onde deveriam reinar o amor, a verdade e a humildade. Esse é o alerta de Paulo: não sobre um golpe político, mas sobre uma sedução espiritual que pode corromper até o que é mais santo.
O “homem do pecado” quer “parecer Deus” — não apenas na autoridade, mas na essência. Essa pretensão é a raiz do orgulho e da queda espiritual. É um aviso para todos nós, pois essa arrogância pode se manifestar de diversas formas, desde líderes autoritários até sistemas que escravizam o espírito humano, desviando-o da verdadeira adoração.
Concluindo
Portanto, o anticristo não é uma figura de outro mundo, saída de um roteiro de filme hollywoodiano sombrio e apocalíptico. Não se trata de um vilão único, com data marcada para aparecer, mas de uma realidade espiritual presente em toda época: a negação do Cristo encarnado, a exaltação do ego no lugar de Deus, a corrupção da verdade e do amor. O “homem do pecado”, o “filho da perdição”, o “espírito do erro” — todos esses nomes apontam para o mesmo princípio de oposição ao Evangelho, que pode se manifestar em sistemas, instituições ou até em atitudes pessoais. Reconhecer isso não é motivo para medo, mas para vigilância, discernimento e compromisso com a luz. Porque o maior antídoto contra o anticristo não é a especulação, mas o amor à verdade revelada em Jesus.
Cordialmente,
Prof. Jobson Victorino
📘 Nota ao leitor:
Este texto faz parte da coletânea Prelúdio Gênesis e está publicado aqui em versão fluida, preparada para leitura confortável em celulares.
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