Parte 4/5 - Besta - Estado Absolutizado

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Parte 4/5 - Besta - Estado Absolutizado

Esta parte investiga a figura da Besta do Apocalipse como símbolo do Estado quando este se torna um poder absoluto, usurpando o lugar de Deus na vida das pessoas. Com base no texto bíblico e na história, analisa como o poder político pode ser corrompido a ponto de exigir obediência total, suprimir a liberdade de consciência e manipular a verdade. Mostra que a Besta não é o Estado em si, mas o Estado quando se torna ídolo — ou seja, quando ocupa o trono reservado à justiça, à verdade e à dignidade humana.

Palavras-chave: besta apocalíptica, poder político, Estado absolutizado, idolatria, liberdade de consciência, Apocalipse, fé e poder, simbolismo bíblico, vigilância espiritual.


  • 🔷1. Teorias Escatológicas Populares
  • 🔷2. Dragões, Bestas e o Mundo da Ásia Menor
  • 🔷3. Ilha de Patmos e Suas Rotas Culturais
  • 🔷4. Números que falam - o Todo
  • 🔷5. Besta - o Estado Absolutizado

1. Teorias Escatológicas Populares

A escatologia, ramo da teologia que estuda os eventos finais da história, tem sido objeto de interpretações variadas e por vezes controversas. No campo popular e religioso, algumas dessas interpretações se distanciam do contexto histórico e simbólico original do livro do Apocalipse, gerando teorias amplamente difundidas, mas nem sempre bem fundamentadas. Este tópico apresenta um panorama crítico e respeitoso das principais ideias populares associadas à figura da "besta", com o intuito de promover reflexão e discernimento (cf. BAUCKHAM, 2015).

Papa ou o Vaticano como a Besta

Uma das mais antigas e persistentes teorias, essa visão emergiu fortemente na Reforma Protestante. Reformadores como Martinho Lutero e João Calvino apontavam o papado como o “anticristo” ou “homem do pecado”, baseando-se na crítica ao poder concentrado da Igreja Católica Romana (cf. WHITE, 2009). Algumas variações tentam associar títulos papais à soma numérica 666, utilizando sistemas como a gematria latina. No entanto, essas associações são amplamente refutadas por estudiosos e não encontram sustentação textual sólida (cf. KISTEMAKER, 2013). Apesar disso, essa teoria ainda é adotada por certos grupos fundamentalistas e por setores do protestantismo histórico.

Decreto Dominical (Adventismo)

Entre os adventistas do sétimo dia, é comum a crença de que a guarda do domingo será imposta por um decreto civil mundial, com apoio do Vaticano e do governo dos Estados Unidos (cf. WHITE, 2009). Nessa perspectiva, a guarda do domingo representaria a “marca da besta”, enquanto o sábado seria o “selo de Deus”. Essa interpretação baseia-se em uma leitura literalista de Apocalipse 13 e em interpretações próprias da profecia bíblica. Embora respeitável do ponto de vista da fé, essa teoria não é compartilhada por outras denominações e carece de evidências históricas ou políticas concretas no cenário atual (cf. FREITAS, 2020).

Microchip, Vacinas e Identificação Digital

Durante a pandemia da COVID-19, surgiram diversas especulações relacionando a “marca da besta” a tecnologias modernas, como microchips, vacinas, QR codes e sistemas de identificação digital. Essas ideias interpretam literalmente os versículos que falam sobre a marca na mão ou na testa (Ap 13:16-17), sugerindo que haveria um controle global da população. Tais teorias são frequentemente impulsionadas por desinformação nas redes sociais e por teorias da conspiração que se aproveitam de contextos de medo e incerteza (cf. WRIGHT, 2008).

Nova Ordem Mundial, ONU e Governança Global

Outra vertente popular associa a besta a organizações supranacionais, como a ONU, o G20 ou os Illuminati. Essa narrativa propõe que há um plano para instaurar uma “Nova Ordem Mundial” sob o domínio de um líder global — frequentemente identificado como o anticristo. Essas interpretações ganham força em contextos de crises políticas ou econômicas e têm grande apelo em vídeos e sites conspiracionistas. Embora tragam preocupações legítimas sobre soberania e ética internacional, geralmente carecem de rigor analítico e histórico (cf. FREITAS, 2020).

Inteligência Artificial e Controle Tecnológico

Com o avanço da tecnologia e da inteligência artificial, surgiu a ideia de que a “besta” poderia ser uma supermáquina que controlaria os humanos por meio de algoritmos, vigilância e manipulação digital. Algumas teorias interpretam o número 666 como uma codificação binária, ou um símbolo da era tecnológica. Essa perspectiva é comum em círculos futuristas, distópicos e até mesmo em grupos religiosos que veem a IA como ameaça à liberdade humana (cf. BOFF, 2021). Embora ainda especulativa, essa teoria reflete os dilemas éticos do nosso tempo.

Israel Moderno e a Reconstrução do Terceiro Templo

Alguns grupos religiosos e políticos associam a besta à reconstrução do Templo de Jerusalém, interpretando passagens como 2 Tessalonicenses 2 como referência ao “homem do pecado” sentando-se no santuário. Essas ideias misturam escatologia, literalismo bíblico e política sionista. Em muitos casos, servem de base para campanhas geopolíticas e religiosas que envolvem temas sensíveis como a soberania de Israel, o islamismo e os conflitos do Oriente Médio (cf. KISTEMAKER, 2013).


2. Dragões, bestas e o mundo da Ásia Menor

Para compreender a linguagem do Apocalipse, é essencial considerar o contexto simbólico, geográfico e mitológico em que João viveu e escreveu. O livro, à primeira vista enigmático, está profundamente enraizado na cultura do primeiro século da era cristã, especialmente na região da Ásia Menor — território que abrigava diversas comunidades cristãs perseguidas e onde floresciam tradições mitológicas ricas em imagens de monstros, bestas e criaturas aquáticas.

A Ásia Menor e a Ilha de Patmos

João escreve a partir da ilha de Patmos, uma pequena ilha rochosa no mar Egeu, onde estava exilado “por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus” (Ap 1:9). Patmos está localizada nas proximidades da Ásia Menor, atual território da Turquia ocidental, onde estavam situadas as sete igrejas mencionadas no início do Apocalipse (Éfeso, Esmirna, Pérgamo, etc.). Essa região era uma encruzilhada de culturas: grega, romana, judaica e mesopotâmica.

Não é coincidência que João tenha recorrido a imagens de dragões, bestas marinhas e criaturas híbridas. Essas figuras habitavam o imaginário religioso e cultural da época — e não eram vistas como simples fantasias, mas como representações simbólicas do caos, do mal, da ameaça e do poder sobrenatural.

Criaturas Mitológicas no Imaginário da Região

A literatura e a tradição oral da Ásia Menor, influenciadas por mitos orientais e greco-romanos, estavam repletas de figuras como:

  • Dragões: Associados ao caos, à destruição e ao poder dos elementos. Presentes na mitologia babilônica, grega e até no imaginário judaico (versão deuterocanônica do livro de Daniel).
  • Serpentes marinhas: Símbolos de perigo profundo e forças ocultas. Muitas vezes ligadas à ideia de monstros aquáticos ou divindades do abismo.
  • Leviatã: Criatura mencionada na tradição hebraica (cf. Jó 41 e Isaías 27:1), geralmente vista como um monstro do mar, inimigo da criação divina.
  • Besta do mar: Imagem comum em vários mitos regionais e também presente no Apocalipse (Ap 13), representando uma entidade de poder político ou espiritual que emerge do caos.

Essas figuras não eram vistas como seres literais, mas como expressões visuais e narrativas das forças que ameaçavam a ordem, a liberdade e a justiça. João, ao adotá-las, não está “copiando mitologia”, mas utilizando uma linguagem compreensível por seus leitores para comunicar a luta espiritual entre o Reino de Deus e os impérios humanos.

Simbologia, não Enigma

Ao contrário do que muitas leituras modernas sugerem, João não escreveu um código enigmático para ser decifrado séculos depois. Ele escreveu um texto simbólico, fortemente ancorado em seu tempo, para fortalecer comunidades reais em meio à perseguição. A linguagem simbólica não é confusão — é poesia profética. É a forma como se fala do indizível quando se vive sob o peso da opressão e da censura.

Por isso, a besta do mar, o dragão e outras figuras do Apocalipse devem ser entendidas não como previsões místicas, mas como imagens poderosas que revelam, por meio da cultura da época, a oposição entre o projeto de Deus e os sistemas desumanos do mundo.

É importante também observar que João adota um estilo literário que dialoga diretamente com os escritos proféticos do Antigo Testamento, especialmente o livro de Daniel. Ambos os textos utilizam uma linguagem apocalíptica marcada por visões, símbolos e criaturas fantásticas. No entanto, há uma diferença significativa de intenção: enquanto Daniel projeta suas visões para um futuro messiânico sob domínio estrangeiro, João escreve para comunidades cristãs já perseguidas pelo Império Romano, com o objetivo pastoral de consolar, fortalecer e advertir. Assim, ainda que a forma literária seja semelhante, o conteúdo de João é mais imediato e comunitário — adaptado ao seu tempo e às suas circunstâncias. Portanto, uma linguagem de escrita adequada a época.

Além do Apocalipse, outras literaturas judaicas e intertestamentárias também utilizaram figuras mitológicas para expressar ideias teológicas. Um exemplo é o livro deuterocanônico “Bel e o Dragão”, encontrado nas versões gregas de Daniel, em que Daniel confronta e destrói um dragão adorado na Babilônia. Embora esse texto não esteja presente na maioria das Bíblias protestantes, ele mostra que o uso de animais simbólicos era comum e aceitável no imaginário religioso judaico daquele tempo. Essas criaturas não eram vistas como literais, mas como representações de falsos deuses, forças do caos ou estruturas de opressão. Isso reforça que João, no Apocalipse, não inovou ao empregar bestas e dragões, mas usou um repertório cultural já existente para transmitir sua mensagem profética.


3. A ilha de Patmos e rotas culturais

Apocalipse: Revelação e Encontro de Culturas

É neste ambiente histórico e geográfico que surge o termo “apocalipse”, do grego apokálypsis, que significa literalmente “revelação”, “desvelamento”. Diferente do senso comum moderno, Apocalipse não é sinônimo de destruição, mas de algo que é trazido à luz — revelado ao olhar humano.

João, exilado em Patmos, tornou-se elo entre diferentes culturas. A linguagem que utiliza é uma fusão entre três matrizes: a mesopotâmica (com seu simbolismo numérico e figuras cósmicas), a judaica (com sua tradição profética e apocalíptica) e a romana (com sua estrutura imperial, política e militar). Patmos, ainda que pequena e isolada, fazia parte de uma rota marítima entre Ásia Menor e Grécia — um verdadeiro cruzamento de mitos, mercadores e mensagens.

A própria geografia da ilha favorecia o uso de imagens ligadas ao mar: monstros marinhos, abismos e tempestades. A besta que emerge do mar (Ap 13:1) não surge ao acaso — ela nasce do imaginário simbólico daquele tempo, onde o mar representava o caos, o mistério e a ameaça. João se apropria dessas imagens não para ocultar, mas para comunicar. Ele fala a partir da linguagem simbólica de sua época, tornando o invisível acessível por meio do reconhecimento cultural de seus leitores.

Curiosamente, Patmos, mesmo sendo uma ilha de exílio, estava inserida em uma das principais rotas culturais e comerciais do mar Egeu. Isso significa que a mensagem escrita ali, embora nascida no isolamento, tinha grande potencial de circulação. O evangelho se beneficiava dessas rotas marítimas, aproveitando as redes de comércio, peregrinação e diálogo cultural já existentes. João não escreve apenas para igrejas locais — ele planta sementes proféticas ao longo de uma rota aberta ao mundo.

João: Profeta das Fronteiras Culturais

João, autor do Apocalipse, é profundamente enraizado na tradição judaica, mas escreve sob a influência direta do mundo greco-romano e herda arquétipos do imaginário mesopotâmico. Ele é, por excelência, um profeta das fronteiras: entre culturas, entre tempos, entre mundos.

Como judeu, João se inspira nas Escrituras hebraicas — profetas como Isaías, Ezequiel e Daniel — e usa símbolos como o número sete, o Cordeiro, o trono de Deus e a Nova Jerusalém. Sua esperança messiânica permanece enraizada na tradição escatológica de Israel.

Escrevendo em grego, a língua do império, João dialoga com a cultura helenista e denuncia, por meio de códigos, o sistema opressor romano. As figuras da besta, da grande prostituta e do falso profeta são representações simbólicas do poder imperial e do culto ao imperador — compreensíveis à sua audiência.

Por fim, sua obra ecoa o imaginário mesopotâmico: dragões, abismos, monstros híbridos, números simbólicos como o 666. São imagens que haviam sido absorvidas durante o exílio babilônico e reinterpretadas dentro da teologia judaica. João ressignifica essas referências à luz da fé cristã, criando um texto simbólico, denso e universal.

Compreender o Apocalipse exige mais do que fé — exige contexto. Estudar essas três culturas não é curiosidade histórica: é um caminho legítimo para interpretar o que João quis realmente revelar. Conhecendo os códigos daquele mundo, o Apocalipse deixa de ser um enigma assustador e se revela como uma mensagem de esperança e resistência.

Raízes Culturais e o Nascimento das Grandes Religiões

As três matrizes que influenciaram João — a judaica, a greco-romana e a mesopotâmica — também deram origem às três maiores religiões monoteístas do mundo: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. É a partir dessas raízes culturais, espirituais e simbólicas que surgiram tradições que moldaram séculos de história humana.

A tradição judaica oferece a base espiritual e profética; a cultura greco-romana fornece o idioma, o cenário político e a resistência ao império; a herança mesopotâmica aparece nos arquétipos cósmicos e numerológicos absorvidos desde o exílio babilônico. João carrega tudo isso ao escrever, e seu texto ultrapassa os limites de tempo, geografia e religião.

O Apocalipse, assim, não fala apenas a uma igreja do passado — fala a todas as gerações. É uma ponte entre culturas, uma revelação de fé que nasce em solo fértil. Entender suas raízes é compreender o tamanho de sua mensagem.


4. Números que Falam - Todo

Na Bíblia, os números frequentemente carregam significados simbólicos que vão muito além do seu valor literal. Eles são utilizados para expressar ideias de totalidade, ordem e relação, sempre inseridos no contexto das culturas que moldaram o universo bíblico.

Importante destacar que esses números não representam conceitos místicos em si mesmos. Por exemplo, o número 7 está associado à criação do mundo em sete dias, simbolizando um ciclo completo (ou um todo matemático), mas a perfeição é atributo exclusivo de Deus — não do número.

Compreender essa dimensão simbólica é fundamental para interpretar com clareza passagens apocalípticas, como as do livro de João, onde os números tornam-se linguagem viva, guiando o leitor por imagens que transcendem o tempo e o espaço.

O Que é uma Base Numérica? (Conceito Matemático)

Em matemática, uma base numérica é o conjunto de símbolos únicos usados para representar números em um sistema posicional. Por exemplo:

  • Base 10 (Decimal): Utiliza dez dígitos (0 a 9) e é o sistema mais comum para contagem humana, provavelmente influenciado pelos dez dedos das mãos.
  • Base 3: Um sistema que utiliza três símbolos, frequentemente associado a conceitos de equilíbrio e estrutura, como o início, meio e fim.
  • Base 7: Menos comum como sistema numérico, mas com profundo significado simbólico em diversas culturas, incluindo a judaica, que a associa à completude e perfeição.

Essas bases numéricas são estruturas fundamentais para a representação de números e têm influenciado simbolismos culturais e religiosos.

O Conceito de “Todo” na Matemática e na Tradição Bíblica

Em matemática, um “todo” refere-se a um conjunto completo de partes que formam uma unidade coerente. Por exemplo, o número 10 pode representar um todo, porque compreende as dez unidades básicas do sistema decimal. Na tradição bíblica, os números também funcionam como totais simbólicos:

  • 10:Representa a totalidade do sistema decimal e simboliza plenitude ou completude no mundo romano e ocidental.
  • 7: Representa a perfeição e a completude divina, refletida na criação do mundo em sete dias e no sábado como sétimo dia de descanso.
  • 3: Representa equilíbrio e estrutura, com uma forte presença em narrativas que dividem o tempo, espaço ou ação em três partes, como início, meio e fim.

Compreender esses números como símbolos de “totalidades” ou “sistemas completos” nos ajuda a interpretar os números presentes na figura da besta do Apocalipse de maneira mais ampla e contextualizada, longe de interpretações místicas ou arbitrárias.

Para ilustrar a importância desses números na tradição bíblica e cultural, podemos observar alguns exemplos práticos:

  • Base 10: É o sistema decimal que usamos diariamente, provavelmente inspirado nos dez dedos das mãos. Na Bíblia e na cultura romana, o número 10 simboliza totalidade e ordem — como nas Dez Mandamentos e nas dez pragas do Egito.
  • Número 7: É símbolo de perfeição e completude divina na tradição judaica. Exemplo disso são as sete igrejas da Ásia mencionadas no Apocalipse, os sete selos, os sete dias da criação e o sétimo dia, o sábado, que representa descanso e plenitude.
  • Número 3: Relaciona-se a ideias de equilíbrio e estrutura. Culturalmente, o número 3 está presente na divisão do tempo e do espaço, como as três partes do dia ou os 360 graus de um círculo, que são múltiplos de 3, formando uma base estrutural para a medição e organização.

Esses números não são arbitrários; eles refletem sistemas culturais, matemáticos e espirituais que ajudaram a comunicar mensagens profundas por meio de símbolos reconhecíveis ao seu público original.

Exemplo prático

Um exemplo prático da simbologia dos números na Bíblia está em Mateus 18:21-22, quando Pedro pergunta a Jesus quantas vezes deve perdoar um irmão que peca contra ele. Jesus responde: “Setenta vezes sete”.

Obviamente, não se trata de um cálculo literal de 490 perdões, mas de uma linguagem simbólica comum na época, indicando que o perdão deve ser abundante e sem limites fixos.

Nesse contexto, o número 7 era frequentemente utilizado na tradição judaica para representar um ciclo completo ou totalidade, enquanto o número 70, relacionado à base decimal adotada na administração romana, amplia essa ideia, expressando a continuidade e a plenitude da ação. Assim, a expressão “setenta vezes sete” enfatiza a ideia de perdão contínuo e completo.

O número 3 como totalidade de base 3

💡 Em matemática: Uma base numérica define quantos símbolos diferentes usamos para contar antes de “virar de casa”. No sistema de base 3 (ou sistema ternário), utilizam-se os dígitos 0, 1 e 2. Quando se chega ao número 3, é preciso iniciar uma nova casa, como acontece com o 10 no sistema decimal. Portanto, o número 3 marca a transição, o fechamento de um pequeno ciclo completo.

💡 Em termos simbólicos e bíblicos: O número 3 aparece com frequência nas Escrituras como símbolo de totalidade relacional e estrutura completa. Pense em tríades como início, meio e fim; passado, presente e futuro; ou corpo, alma e espírito. No contexto bíblico, temos:

  • A Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo;
  • Jesus ressuscitando ao terceiro dia;
  • As três tentações no deserto;
  • As três orações de Jesus no Getsêmani.

Por isso, é válido afirmar que o 3 representa um “todo de base 3” — uma estrutura de equilíbrio, de unidade mínima funcional, que comunica completude em sua própria forma.

Com isso, entendemos que o número 3 não é um símbolo místico, mas uma construção matemática e cultural que ajuda a comunicar profundidade na linguagem bíblica. Isso fortalece a hipótese de que João usa esses números como elementos pedagógicos e simbólicos, e não como códigos secretos.

A estrutura ternária também aparece na bênção sacerdotal (Nm 6:24–26), nos três dons da fé, esperança e amor (1Co 13:13), e no próprio batismo cristão, feito em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28:19). O número 3, portanto, frequentemente sugere relação plena e equilíbrio espiritual.

O número 7 como totalidade sagrada

💡 Em matemática e cultura: O número 7 é frequentemente considerado um número de totalidade ou completude, especialmente na tradição judaica. Não é uma base numérica tradicional, mas simboliza ciclos completos, fases e perfeição no sentido de integridade.

💡 Na Bíblia: O número 7 aparece repetidamente para marcar o cumprimento de um ciclo completo, como:

  • Os sete dias da criação, culminando no descanso no sétimo dia;
  • As sete igrejas do Apocalipse;
  • Os sete selos, sete trombetas e sete taças;
  • A expressão “setenta vezes sete” como uma forma de indicar perdão infinito, não um cálculo literal.

Portanto, o número 7 representa uma totalidade qualitativa, um todo sagrado que indica a completude dentro da cultura judaica e bíblica, sem caráter místico, mas como um recurso simbólico para transmitir ordem e plenitude.

O número 10 como totalidade decimal

💡 Em matemática: O número 10 é a base do sistema decimal, que é o sistema numérico mais usado no mundo hoje. Ele se baseia em dez símbolos — de 0 a 9 — antes de passar para a próxima casa decimal (como 10, 100, 1000). Esse sistema é intuitivamente ligado à contagem dos dedos das mãos, sendo um todo quantitativo.

💡 Na cultura romana e ocidental: O número 10 simboliza a ideia de um todo completo, total ou inteiro, especialmente em sistemas de contagem e organização. É por isso que vemos:

  • Os Dez Mandamentos, que representam um conjunto completo de leis;
  • A divisão do tempo em décadas;
  • A base 10 como padrão para medidas e contagens.

Assim, o número 10 representa um todo quantitativo e completo, uma estrutura organizada e prática que reflete a base cultural da época romana e que é usada por João para comunicar integridade e ordem no Apocalipse.

Ilustração Musical: Totais de 7 e 12 Notas

Para ajudar a compreender os conceitos de “todo de 7” e “todo de 12”, podemos recorrer à música — uma linguagem universal e prática.

  • Sete notas musicais naturais: Na música ocidental tradicional, existem sete notas naturais (Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si). A oitava nota é a repetição da primeira, formando um ciclo completo ou “todo de 7”.
  • Doze notas musicais com acidentes: Quando incluímos os acidentes musicais — sustenidos e bemóis — temos doze notas diferentes em uma escala cromática. A décima terceira nota é novamente a repetição da primeira, representando um “todo de 12”.

Essa estrutura musical exemplifica como números como 7 e 12 funcionam como “totalidades” em sistemas naturais e culturais, ajudando a organizar o som e a criar ordem dentro da diversidade. Assim, os números simbólicos na Bíblia e no Apocalipse também refletem uma lógica cultural de totalidade e organização, não um misticismo abstrato.


5. A Besta - o Estado Absolutizado

Roma: De Perseguidora a Guardiã da Fé

Durante séculos, muitos enxergaram em Roma a encarnação da besta apocalíptica. O Império que perseguiu cristãos, que executou Pedro e Paulo, que ergueu coliseus e cruzes, parecia à primeira vista o símbolo perfeito do mal institucionalizado. Mas a história não se encerra aí. Roma, paradoxalmente, foi também o berço da propagação do cristianismo — e não apenas pela conversão de indivíduos, mas pela conversão da própria estrutura imperial.

Com Constantino, Roma se torna cristã. O imperador que antes carregava estandartes de César, passa a empunhar o lábaro com o nome de Cristo. A perseguição dá lugar à proteção, os mártires dão lugar aos bispos, e o Império que um dia tentou calar o Evangelho passa a proclamá-lo em suas línguas, estradas e instituições. A partir de Teodósio I, o cristianismo não é apenas aceito — é declarado religião oficial do Império.

Roma torna-se, então, sede da Igreja. Os papas, sucessores de Pedro, estabelecem-se na mesma cidade que havia derramado o sangue do apóstolo. A cruz que antes era instrumento de morte agora paira sobre catedrais. E ao longo da Idade Média, Roma se torna centro espiritual, intelectual e missionário da cristandade. Daqui partiram monges, padres e estudiosos que preservaram os textos bíblicos, educaram gerações e levaram o Evangelho às fronteiras do mundo conhecido.

É verdade que a história da Igreja em Roma teve sombras e erros, como toda história humana. Mas é também verdade que, longe de ser a besta, Roma se converteu em guardiã da fé cristã. Ela representa a possibilidade de redenção — de que mesmo os sistemas mais opressores podem, sob a luz de Cristo, mudar de rumo.

Por isso, é injusto e teologicamente equivocado identificar a cidade de Roma ou o papa como figuras demoníacas. O Apocalipse de João não é um ataque contra geografias ou lideranças específicas, mas uma denúncia contra qualquer forma de poder que se absolutize. E Roma, ao longo do tempo, demonstrou que até mesmo impérios podem se ajoelhar diante do Cordeiro.

Ao longo da história, muitos tentaram identificar a besta do Apocalipse com um império específico, um líder religioso ou um sistema político do passado. Roma, por exemplo, foi durante séculos acusada de ser a encarnação dessa figura simbólica. No entanto, uma leitura mais profunda e coerente com o espírito profético de João sugere algo mais abrangente: a besta representa o Estado absolutizado — qualquer forma de poder institucional que se coloque acima da dignidade humana e do próprio Deus.

A besta não é apenas Roma — ela representa qualquer regime, sistema ou governo que se erga como estrutura de opressão. João descreve um poder que legisla e, ao mesmo tempo, desrespeita as próprias leis; que pune ou absolve conforme sua conveniência; que controla o comércio, os corpos e até mesmo as consciências. O texto bíblico afirma:

“E faz que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, lhes seja dada certa marca na mão direita ou na testa, para que ninguém possa comprar ou vender, a não ser quem tenha a marca: o nome da besta ou o número do seu nome.” (Apocalipse 13:16-17)

Trata-se de um poder que abrange todas as camadas sociais, exigindo submissão total — não apenas por imposição externa, mas por uma espécie de encantamento. Um poder que seduz, fascina, hipnotiza. João nos mostra que o perigo maior não é apenas ser oprimido pela besta — mas admirá-la. É o culto ao Estado que se faz deus, que exige não apenas obediência, mas adoração. Um sistema que escraviza com a aparência de estabilidade, progresso e ordem.

Esse tipo de poder não se restringe à Roma do século I. Ele atravessa os séculos e se manifesta em toda estrutura humana que substitui o bem comum pelo domínio, a justiça pela conveniência, a liberdade pelo controle. A besta é, portanto, uma realidade espiritual, política e histórica que continua viva — e que será combatida até o retorno de Cristo. Reconhecê-la exige discernimento, coragem e fé.

O poder estatal é a expressão da autoridade suprema que o Estado exerce sobre seu território e população. Manifesta-se na capacidade de tomar decisões, aplicar leis, manter a ordem e agir em nome da coletividade. Trata-se, portanto, do instrumento pelo qual a Besta pode estruturar e controlar a vida social, quando absolutizado.

Na linguagem do Apocalipse, a Besta não é o Estado em si, mas o Estado quando se torna ídolo, quando ocupa o lugar que deveria ser reservado à liberdade, à consciência e à verdade divina.

O Reino que Não é deste mundo

Um dos momentos mais reveladores do Novo Testamento está na resposta de Jesus a Pilatos: “O meu Reino não é deste mundo” (Jo 18:36). Com essa afirmação, Jesus desmonta a expectativa de um Messias político — alguém que tomaria o poder pelas armas ou substituiria Roma por Jerusalém como capital de um novo império teocrático. Ele se recusa a repetir a lógica dos reinos terrenos. Seu governo não é de dominação, mas de reconciliação.

Para os judeus da época, essa decepção foi profunda. Esperava-se que o Messias fosse um libertador nacional, um general que derrotaria o domínio romano e restabeleceria a glória de Israel. Mas o que Jesus propôs foi radicalmente diferente: um Reino de justiça, paz e amor — invisível aos olhos, mas visível nos frutos. E justamente por isso, foi rejeitado por muitos que não conseguiram enxergar além do poder estatal.

Esse contraste entre o Reino de Deus e os impérios humanos é chave para compreender a denúncia de João no Apocalipse. A besta, com seus chifres e cabeças, representa sistemas que se absolutizam — governos, Estados, ideologias que se colocam no lugar de Deus. Quando o poder político exige adoração, manipula consciências ou governa sem justiça, torna-se uma caricatura monstruosa. E é contra esse tipo de poder que o Cordeiro se ergue.

Portanto, identificar a besta não é uma tarefa geográfica nem religiosa, mas ética e espiritual. A besta é toda forma de poder que se rebela contra o Reino do Cordeiro — um Reino que não é deste mundo, mas que age nele, sem jamais se confundir com ele.

No Caminho de Emaús: A Esperança Frustrada de um Reino Político

Após a ressurreição, Jesus se aproxima de dois discípulos que caminhavam tristes para Emaús. Eles não o reconhecem de imediato, mas revelam o motivo de sua decepção: “Ora, nós esperávamos que fosse ele quem redimiria Israel” (Lc 24:21). A dor deles é a dor de muitos: esperavam um Messias que restaurasse o trono político de Israel, que vencesse Roma, que assumisse o poder com força e glória visível.

Mas Jesus, caminhando com eles, explica com paciência — desde Moisés até os profetas — que o Cristo deveria sofrer antes de entrar em sua glória. O Reino que ele inaugurou não é deste mundo. Ele não veio substituir um império por outro, mas revelar um novo modo de ser: humilde, justo, reconciliador. No partir do pão, finalmente, seus olhos se abrem. E compreendem: o Messias estava entre eles o tempo todo, mas não como esperavam.

Cordialmente,
Prof. Jobson Victorino


📘 Nota ao leitor:
Este texto faz parte da coletânea Prelúdio Gênesis e está publicado aqui em versão fluida, preparada para leitura confortável em celulares.
A versão completa, com referências, atividades reflexivas e material de apoio, está disponível na página Biblioteca deste blog.

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